Sigh – Hangman’s Hymn [2007]

Muito se tem falado de Black Metal e de bandas que recuperam uma faceta mais tradicional e primitiva como os Deathspell Omega, Furze ou por exemplo os Leviathan. Os próprios Sunn0))) encarregaram-se de atirar as atenções todas para o estilo aquando o lançamento de Black One.

Por outro lado existem bandas que tendem a romper com os limites, metamorfoseando cada vez mais o Black Metal, tornando-o até incaracterístico, vejam por exemplo, a evolução musical dos Ulver. Os Arcturus e Enslaved merecem destaque por terem lançado discos geniais mantendo a brutalidade e frieza dos primórdios, adicionando outras influências como a música psicadélica “floydiana” ou até a electrónica entre outras.

Quando todos olham para os países nórdicos para contarem uma história, esquecem-se que no Japão existem bandas como os Sigh. Formados em 1989 estiveram “presentes” no eclodir do Black Metal, assim como foram mutando o seu som mais Black/Thrash na linha de Venom e Celtic Frost para nos últimos anos se terem tornado uma das bandas mais geniais e vanguardistas.

Os primeiros passos deram-se com a atenção dada por Euronymous (Mayhem) e da sua amaldiçoada editora Deathlike Silence, selo do primeiro trabalho dos Sigh, Scorn Defeat, isto em 1993 pouco depois de Varg Vikernes ter morto Euronymous – com ele acabaria por desaparecer a editora.

Os Sigh continuaram a trilhar caminho transformando cada vez mais o seu som que na altura de Hail Horror Hail resultou em Black Metal formato banda sonora de filmes de terror. Aliás os filmes de terror mantiveram-se sempre como uma clara influência para os Sigh. O alquimista dos teclados, Mirai, chegou a juntar-se aos Necrophagia que detinham os rumores de Phill Anselmo pertencer ao lineup. Mirai envolveu-se ainda em trabalhos de bandas como os Meads of Asphodel, Cut Throat, Hallowmas e Hidden.

Mas foi com Imaginary Sonicspace que as coisas atingiram novas dimensões. O colectivo usou equipamento do período psicadélico dos anos 70, mas não ficaram parados na máquina do tempo. Com um artwork feito por Stephen O’Malley, ninguém esperava que aquela capa verde cheia de formas estranhas escondesse tantas surpresas. Um disco carregado de teclados e orquestrações (usaram-se Moogs, Hammonds, Rhodes e tudo que pudesse criar sons “exóticos” para o estilo). Com o distanciamento dos filmes de terror, afirmava-se o imprevisto esquizofrénico de músicos como John Zorn ou Frank Zappa. Mirai não esconde as suas influências, para além de ter tido aulas de piano clássico durante mais de 20 anos, mantém a paixão pela música clássica, algum free-jazz e bandas/compostiores como The Beach Boys, Stockhausen ou Xenakis etc..
Com Gallows Gallery as cartas voltaram a ser baralhadas e mais um disco genial veio cá para fora. Este ano chega-nos Hangman’s Hymn – um colosso de Black Metal orquestral. Nas asas de Richard Wagner, os Sigh voltam ao passado para escreverem um dos seus trabalhos mais violentos e coesos. Voltam as vozes agressivas, coros femininos, ambientes sinfónicos e ritmos fustigados a alta velocidade. Juntemos a técnica de uns Mercyful Fate, violinos, sintetizadores e os dedos de James Murphy que ajudou na produção e no paladar Thrash deste disco. As melodias são dignas dos clássicos Heavy Metal com refrões memoráveis, tudo iluminado pela vela negra dos primeiros trabalhos dos Cradle of Filth. Podiam ser feitas ainda dezenas de referências como as cavalgadas “power-épicas” dos Hollenthon ou Bal-Sagoth, mas apenas me resta dizer que os Sigh estão a fazer pelo Black Metal o que os Nile fazem pelo Death Metal – reinventa-se o passado quebrando qualquer barreira do presente. Um dos melhores discos do ano.

Comentários

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  1. Ivan Pereira

    Este texto reflecte de uma maneira muito bem conseguida um pouco da evolução que algumas bandas provocaram em alguns estilos. Ta muito bom.

  2. ::Andre::

    há uns meses atrás tive para sacar esse álbum, talvez o faça agora. bom texto, mete no wikipédia ;)

  3. Crestfall

    Estou farto de ler/ver boas criticas/notas a discos destes gajos, mas o último contacto a sério que tive com o som deles acho que foi na década passada, sem nunca me cativarem. E apesar de ler coisas boas nunca senti o impulso de investigar as novidades. Acho que despertaste a minha curiosidade com este texto, muito bom :)

  4. Pedro

    Crest saca a partir do Imaginary Soundscape. Se não gostares podes escolher um castigo para mim. ahah