«So we beat on, boats against the current, borne back ceaselessly into the past»

Marina Abramovic, viralmente celebrada após esta performance, afirmou o seguinte numa entrevista à InterviewMagazine:

I don’t think anyone does anything from happiness. Happiness is such a good state, it doesn’t need to be creative. You’re not creative from happiness, you’re just happy. You’re creative when you’re miserable and depressed. You find the key to transform things. Happiness does not need to transform.

Há algo estranhamente catártico na desolação, no infortúnio. Emil Cioran, escritor romeno que percorreu grande parte do séc. XX, viu os seus 84 anos serem perpetuadamente assolados por um niilismo incessante. A sua mãe, consternada perante tamanha tristeza, disse-lhe que preferia ter abortado, só para não testemunhar a sua prostração. Foi precisamente a partir daí, dessa sentença, que Emil despertou em definitivo para a carreira literária – ainda hoje influente em França, país no qual viveu de 1941 até 1995, ano da sua morte.

É escusado ligar o desalento às grandes edificações musicais, de tão evidente que é a correlação. Poderia, para este artigo, rebuscar as dramáticas composições de Townes Van Zandt, a eterna melancolia de Nick Drake, as soturnas noites de Leonard Cohen ou, até, a solidão citadina do anónimo Burial. Só que, e pegando naquele sussurro de guerra do Zack de La Rocha na Freedom, «your anger is a gift.» Irmã de armas da tristura, a fúria é pura hipertrofia mental na melhor música agressiva que por aí se faz. E, neste capítulo primeiro, decidi escolher seis malhas que retratam o perigoso cocktail molotov composto pela desgraça e pela selvajaria:

#6 | Low Places – Malcontent | Low Places | Recession Records [2011]

Criaturas de uma qualquer masmorra de Los Angeles, os Low Places são o verdadeiro escarro. A classificação funciona-lhes como elogio-mor e esta «Malcontent» é tão directa que não lhe consigo ficar indiferente. Letra digna de uma chamada para qualquer suicide line, vinda de tipos que enchem de sludge as raízes powerviolence. Ou então é só hardcore. Diz-se por aí que já acabaram. Fica a repulsa.

 

#5 | Buzzov*en – Drained | To A Frown | Allied Recordings [1993]

Companheiros de estrada dos Eyehategod e dos Neurosis, lá pelos 90s, os Buzzov*en são ignorados em demasia. Tão ou mais venenosos que os seus colegas de New Orleans, viajaram pelos Estados Unidos a espalhar, literalmente, vómito. Alienados, agarrados às mais lutuosas substâncias e esmagados pela depressão, lançaram essenciais álbuns de sludge – um deles «To A Frown». Dele, «Drained», que se faz apresentar com um sample do «Full Metal Jacket», é uma ode à lenta dissonância sulista. Regressados ao activo em 2010 para uns concertos com Dixie Collins [Weedeater] no baixo, sabe-se agora que o frontman Kirk Fisher já conseguiu deixar os opiáceos. Talvez venham a surgir novidades. Talvez… Não.

 

#4 | Left For Dead – Eight Floors Above | Splitting Heads | No Idea Records [1998]

Quem é que aqui gosta de Cursed? Todos, espero. Anos antes de Chris Colohan e Christian McMaster revirarem o hardcore de pernas para o ar com o brilhante «I», os subsolos canadianos jorravam sangue com os Left For Dead. Ímpeto desmesurado e um ódio às paletes tão bem cravado em «Eight Floors Above», hino absoluto para os momentos em que o maior inimigo é o nosso patrão. Acima está a versão original de 98, mas a A389 lembrou-se de reeditar todas as malhas dos LFD há meses, devidamente remasterizadas. Um belo sentido de oportunidade, diga-se: a banda voltou a carburar e prepara-se para editar material original. Em Novembro, visitam o holandês Bloodshed.

 

#3 | Toadliquor – Charred | Feel My Hate – The Power Is The Weight | Soledad [1993]

Decifrar o paradeiro destes senhores não é uma acessível tarefa. Desaparecidos for good, os norte-americanos Toadliquor deixaram para trás provavelmente o melhor disco de sludge, capaz de bater aos pontos qualquer obra dos Eyehategod ou Noothgrush. Tão bom que em 2002 o Greg Anderson decidiu pegar nele: encheu-o de faixas extra e lançou, sob égide da sua Southern Lord, a compilação «The Hortator’s Lament». Feedbacks. 

 

#2 | Dystopia – Stress Builds Character | Human = Garbage | Life Is Abuse [1994]

O estatuto de absolutas referências do crust poderia ter sido atingido só com este tema. Fizeram mais, bem mais, mas «Stress Builds Character» eternizar-se-á pelo seu grito de revolta, quase demencial. Duvido que haja melhores introduções do que esta: o insano discurso, o alarmante baixo, a crescente raiva. Grandes. Uns reunion shows seriam apreciados.

 

#1 | Cavity – A Bitter Cold Spell | Laid Insignificant | Bacteria Sour Records [1998]

«MEDIC! Where have you been for nine months?» – o grito de Rene Barge é dos mais aflitivos fôlegos que já escutei. Notáveis no seu tempestuoso sludge, «A Bitter Cold Spell» é, de longe, a minha música de eleição de Cavity. A maneira como se dilui por entre camadas de feedback, imperceptíveis palavras… Um escândalo, em suma. Quem diria que esta banda chegou a contar com Steve Brooks e Juan Montoya, dos felizes Torche?

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