Sob esta enorme cúpula

A presença no chão como quem sobe pelos pés até à espinha, sem dor nem leveza, em movimento fetal contínuo. Um azul denso e difuso, que é cor por aproximação, a fibra é a sua cor. Existe descontínuo, circundante, entre nós, longe mas perto com invasão. Diz-nos pouco, é uma varanda gigante de noite escurecida pela naturalidade de um luar semi-urbano artificial. Um esconderijo à vista de todos, uma enorme cúpula de papel, uma cor difusa sobre todos, em constante e lenta mutação, uma cor temporal portanto. Um espaço sobre um espaço. Um tecto sobre um chão: o que é pouco mas que de nós distende sobre o tecto sem geometria alcançável e o chão de mutantes horizontes. Este pouco imenso de espaço ao dispor de uma presença. A nossa presença. Nós. Todos.

Percebemos pouco sobre a vida. Apreciamos-la em raros momentos, enganamo-nos em cansaço e prazer, julgamos não viver no ódio mas suprimimos todos em detrimento de alguns. Somos pouco para ser tanto. Elevamo-nos em elegância e inteligência. Sobrevivemos sob um alter-ego visceral de resistência, submetemo-nos, compreendemos um pequeno pecado que justifica um grande bem, somos moldáveis como plástico do futuro, lapidados em golpes superficiais ou profundos, não conseguimos aturar tanta merda, temos que esquecer parte, somos apenas um, um em muitos, pouco no meio de tanto que também é uns poucos apenas aglomerados. Esperamos em acção. Singimo-nos ao nosso mundo e aos seus limites humanos e verosímeis. Uma realidade que coça o real mas nunca o é. Um movimento lento e contínuo à escala cósmica. Sem traço, esboçado e infantil. Um passo trôpego e grande, e lento, muito lento. Somos vegetais acelerados por conhecimento e poder; e queremos mais, e queremos sempre mais. Somos do controlo. Da conquista. Da procura. Do Mais. De Conquistar O Mundo. Somos merda também. Valorizamos a opulência da ostentação e desprezamos a honestidade da pobreza. Somos pouco também. E não há mal nenhum nisso. Sabendo que nenhum homem muda um mundo inteiro mas apenas parte da sua genética e descendência nunca conseguiria mudar o mundo. Aliás ninguém o pode. Apenas o conhecimento através de um espírito crítico aguçado nos poderá mostrar a realidade mais clara e mais crua, e nem tudo é o que parece. O problema do mundo não são os ignorantes mas sim a própria ignorância e as suas causas e consequências. Vivemos num mundo que cultiva a ignorância, a distracção, a fantasia, o negócio, a prosperação de papel verde, o mais e o Mais, muito, demasiado, para depois ser tão pouco em vida… E não faz mal… Se olharmos para trás parece que isso nunca fez mal… Ainda aqui estamos afinal… quase vivos mas a morrer por dentro, carregados de cor mas sem branco, exagerados apáticos e circulares, previsíveis: e mete nojo, mete bastante nojo. Esquivamo-nos nos restos ainda não destruídos pelo fogo vivo e económico. E somos merda, bastante merda. Pergunto, às vezes, qual orgulho na raça humana? Condenados a continuar a destruir? Uma espécie parasita repleta de recursos em constante evolução? Viveremos num filme pós-apocalíptico entre uma resistência e os degredos humanos da evolução? Um fim planeado e previsível a longo prazo quase a roçar a eternidade que desconhecemos? Um jogo maravilhoso, se pensarmos que não é real, de experiências e reviravoltas que é a vida em prazer e em dor? Se não fosse real seria esplêndida, uma película imprevisível e reveladora, enorme, lenta e enorme? Quase no exterior, perto do interior, ali, e aqui. Lento, lentos à escala enorme da vida em passado e em futuro. Se calhar vamos demasiado tarde. Resta a minimização. E prolongar a vida daquilo que nos traz vida.

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