Sons da Semana: Azymuth; Ash Borer; Dalva de Oliveira; Pan Sonic; Machinefabriek; Cyro Monteiro

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Azymuth – Águia Não Come Mosca (1977, Atlantic)
Este disco foi gravado em 1972 por um dos melhores grupos de música progressiva brasileira. Num país que a nível musical tem/teve quase uma palete completa de sons, outros nomes tornaram-se relevantes no chamado “prog” mais melódico, como por exemplo, Guilherme Arantes, Bacamarte, Boca Livre, A Bolha, Moto Perpétuo ou até os Novos Baianos, entre muitos outros. O estrutura deste trabalho acaba por ser o Jazz de Fusão, pautado por ambientes de outras galáxias, muito por culpa do sintetizador. Os ritmos vão-se ondulando num groove relaxado e o baixo assume aqui o par perfeito para os teclados, pelo meio ainda se ouve um ou outro apontamento mais “sambista” bem batucado (os Azymuth apresentavam-se como trio teclados/baixo/bateria). Apesar de ser discutível o facto deste disco ter envelhecido ou não com mais brio, a verdade é que estaremos sempre a ouvir excelentes músicos que chegaram a dar corpo a gravações de nomes como Tim Maia, MPB-4, Marcos Valle, entre outros.

 

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Ash Borer – Ash Borer (2011, Psychic Violence)
Os Ash Borer têm-se destacado como um dos nomes mais coesos do Black Metal actual. Dizer que aqui temos distorções de guitarra ásperas e sujas, acompanhadas por ambientes lúgubres que se vão cruzando com ataques rítmicos fulminantes seria redutor. Uma das coisas mais fascinantes no som dos Ash Borer é o facto de pegarem em diversas referências, Doom, Pós-Rock e alguma destreza técnica, sem abandonarem a identidade do Black Metal. O seu som é agressivo e primitivo, comparável a grupos como Wolves in the Throne Room, Deathspell Omega ou Gnaw Their Tongues e neste trabalho conseguem criar uma banda sonora que faz justiça aos melhores discos de Burzum ou Xasthur. O facto de optarem por edições em formato K7 faz sentido, até porque o seu som não precisa de imaculada pureza sonora para atingir os seus fins.

 

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Dalva de Oliveira – Dalva (1973, EMI)
Ouvir Dalva de Oliveira interpretar o “Hino ao Amor” de Edith Piaf ou “A Bahia Te Espera”, serve de consolo que alimenta a pequeneza que reside em cada um de nós, mas que nos permite viver um mar de experiências. A voz apaixonada de Dalva, que tem muito de Edith Piaf, consegue engrandecer-se em escalas melódicas como se de uma soprano se tratasse. Felizmente não chega a tanto, preferindo ficar-se pelo Samba-canção, ornamentado por arranjos orquestrais de proporções emocionantes. Aquela que foi homenageada como o “O Rouxinol da Canção Brasileira” tem aqui um reportório imune ao tempo, com histórias de amores e desilusões que nos tocam.

 

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Pan Sonic – Aaltopiiri (2001, Blast First)
A herança dos Pan Sonic continua a ecoar eficientemente por estes lados. São bem vindas as modelações de sons mecânicos, música minimalista, seja através da música Techno mais física, seja pela influência do IDM, de nomes como Aphex Twin ou Autechre. A indução que este trabalho provoca traz com ele alguns ruídos, ritmos hipnóticos, sintetizadores destinados a fazerem levitar melodias… Apesar dos Pan Sonic terem-se afirmado com um nome essencial para a chamada música Industrial, a verdade é que este disco é mais do que um trabalho de sucata sonora, fazendo ecoar no pavilhão sonoro dos auscultadores um som que nos transporta para uma realidade diferente, crua, negra, solitária. Um excelente exemplo do cruzamento de música ambiental com ritmos mais “dançantes”.

 

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Machinefabriek – Bij Mirjam (2004, Self-release)
Apesar do meu esforço de estar a preparar uma entrevista ao senhor Rutger Zuydervelt, torna-se um exercício bem suado acompanhar todas as edições e participações noutros projectos que ele tem vindo a fazer nos últimos anos. Dos vários trabalhos que poderia referir, uma vez que são vários os que gosto, como Dauw (2008) ou Vloed (2008), escolho o que ando a ouvir neste momento o pequeno EP, Bij Mirjam. Apesar da escassa informação disponível sobre o mesmo, resta-me ajustar as palavras aos sons e pelo caminho encontro tonalidades lavradas por drones que tanto nos obrigam a aumentar o volume para os sentirmos verdadeiramente, como se tornam mais abrasivos (ruidosos). Aqui é feita também a exploração de sons acústicos, de pormenores e objectos do dia a dia, assim como o som do piano que vai desmoronando lentamente, nota a nota, num som que tem tanto de caseiro como de inquietante, por revolver os silêncios e os ruídos de uma forma diria bonita/desconcertante.

 

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Cyro Monteiro – Senhor Samba (1961, CBS)
Como o próprio nome do disco indica, Cyro Monteiro escreveu o seu nome junto dos notáveis do Samba, juntando-lhe um requinte e bom gosto nos arranjos que tanto permitiu um passo para o jazz (com muito swing), como uma volta em torno da bossa nova. Estamos no início dos anos 60, onde juntamente com nomes como Elizeth Cardoso ou Ary Barroso, se foram traçando as linhas de um dos estilos mais maravilhosos de sempre, e que mais tarde serviram para que nomes incontornáveis como Jorge Ben, Chico Buarque ou Cartola gravem-se os clássicos da nossa vida. Música que se quer tanto quanto elogios à vida.

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