Sons da Semana: Eduardo Gudin, John Foxx, Clutch, The Sunburned Hand of The Man, Sound Ecology e Air Texture

eduardo_gudin

Eduardo Gudin, Paulo César Pinheiro e Márcia – O Importante É que a Nossa Emoção Sobreviva (1975, Odeon)
Paulo César Pinheiro escreveu algumas das letras mais bonitas da música brasileira, servindo nomes como Elis Regina, Chico Buarque ou Vinicius de Moraes. Apesar da sua existência artística ter quase unicamente morado nas letras, felizmente ainda gravou alguns sons para as acompanhar. Neste “Importante…” é feito o registo do melhor de duas noites ao vivo, concertos mágicos, onde o samba é tratado com emoção e balanço. A secção rítmica junta-se aos dedilhados do violão, flauta, orgão, cavaquinho etc., numa exultação à vida, ao respeito pelas palavras e pela música popular brasileira. O maior feito deste concerto é a forma como os arranjos vestem na perfeição cada música, deixando-nos ao longo do disco experimentar diferentes emoções com intensidade.

Mordaça

Tudo o que mais nos uniu separou
Todo o que tudo exigiu renegou
Da mesma forma que quis recusou
O que torna essa luta impossível e passiva

O mesmo alento que nos conduziu debandou
Tudo o que tudo assumiu desandou
Tudo que se construiu desabou
O que faz invencível a ação negativa

É provável que o tempo faça a ilusão recuar
Pois tudo é instável e irregular
E de repente o furor volta
O interior todo se revolta
E faz nossa força se agigantar

Mas só se a vida fluir sem se opor
Mas só se o tempo seguir sem se impor
Mas só se for seja lá como for
O importante é que a nossa emoção sobreviva

E a felicidade amordace essa dor secular
Pois tudo no fundo é tão singular
É resistir ao inexorável
O coração fica insuperável
E pode em vida imortalizar.

john_foxx

John Foxx – Metamatic (1980, Edsel Records)
Após John Foxx ter saído dos Ultravox, gravou no início dos anos 80 este disco recheado de sintetizadores e ritmos maquinais (lembrando a electrónica épica e sintética dos Kraftwerk), a isso juntou-lhe uma sensibilidade pop com contornos de negritude que tanto inspirou grupos na década de 80. Foxx manteve as suas músicas simples, por vezes estéreis nas vibrações dadas ao diferentes teclados minimoog, orgão etc. – trepidados pela repetição da caixa de ritmos e uma voz que se quer assombrada/alienada. Para além de ser um dos melhores trabalhos da chamada Synth Pop, é também um exercício de futurismo sonoro, de exploração e indução de ambientes próprios que ainda hoje fazem sentido. A banda sonora para as cidades que se vestem de aço e solidão, para pessoas que se deixam despersonalizar, uma espécie de decadência romântica que acabou por ser tocada por nomes como os Japan entre outros. Educativo para aqueles que gostam do som de John Maus.

clutch

Clutch – Earth Rocker (2013, Weathermaker Music)
Ao décimo disco os Clutch continuam a afirmarem-se como uma das bandas mais consistentes no espectro do Stoner Rock cheio de groove e mantendo uma apetência para escreverem canções com princípio, meio e fim, lembrando até a herança dos Pantera. Alguns temas são mais rápidos, numa abordagem mais simples e rock n’ roll, fruto da convivência em tour com nomes como os Motorhead. As alçadas de guitarra são musculadas como seria de esperar na escola Sludge/Stoner, às quais se junta uma secção rítmica que tanto balanceia nos momentos mais calmos, como insurge-se em ataques mais rápidos. Os Clutch não inovam e dão-nos exactamente aquilo que esperávamos, não há como não ficar contente com isso.

sunburned

The Sunburned Hand Of The Man – Jaybird (2001, Manhand)
Este Jaybird é provavelmente o melhor disco dos Sunburned Hand Of The Man e tratando-se de um registo gravado ao vivo, não deixa de ser ainda mais fascinante. Afinal é neste formato/registo que a trupe se solta, ouvem-se gritos de expurgação interior e os ritmos vão-se repetindo até levantarem uma mantra krautrockiana. O uso e abuso do reverb atira para as catacumbas do inferno a música dub folk que inicia este concerto. O termo free encontra aqui o seu cantinho para habitar e pelo caminho vai experimentando uma palete de sons alucinatória que tanto lembra Dr. John no disco Gris Gris como os Excepter ou os longos experimentalismos dos Parson Sound. Um ritual que tem muito de físico e tribal, as vozes embrulham-se em efeitos e gritam-nos para nos deixarmos ir com elas, os minutos avançam e os músicos encontram a mesma onda hertziana dos seus cérebros num funk psicadélico delirante.

sound

Website: Soundecology
Um dos exercícios sonoros mais interessantes é escutar os sons que nos rodeiam no dia a dia, quais os ruídos, quais as melodias, que ambientes, pessoas e estruturas configuram e desfiguram a paisagem sonora das nossas cidades, dos campos, dos prédios e das casas. O site Sound Ecology leva-nos à descoberta dos sons que nos rodeiam e que já fazem parte da nossa alimentação auditiva diária. A viagem ou documentário questiona se vivemos em tempos em que não é tolerável o silêncio dada a proliferação de sons. Teremos nós vidas demasiado ansiosas para evitarmos a contemplação em silêncio daquilo que nos rodeia? Vale a pena a visita não só para apreciadores de field-recordings mas para uma reflexão do som das coisas e do ambiente…

“Le paysagem sonore du monde change. L’homme moderne habite audourd’hui un univers acoustique qu’il n’a jamais connu” R. Murray Schafer, Le paysage sonore (1979)

air

Various – Air Texture Vol. II (2012, Air Texture)
A Air Texture pretende ser uma colectânea dos nomes mais relevantes da música drone/ambiental/minimal/electro-acústica da actualidade e consegue reunir escolhas acertadas. Alguns exemplos são por exemplos os arranjos orquestrais de Brian McBride (Stars of the Lid), que se vão movimentado de forma luminosa, abrindo as portas para a melancolia dos filmes de Terrence Malick. Outro nome de destaque é Loscil que já nos tinha mostrado a sua mestria em moldar drones de enorme beleza em discos como First Narrows ou Plume. Algumas das melhores editoras de música ambiental estão representadas neste disco, nomeadamente, Kompakt, Kranky, Type e Touch. Esta colectânea facilmente fica a ecoar na nossa cabeça, preenchendo silêncios, e criando uma narrativa de filmes imaginários (ou field-recordings de viagens imaginárias). Podemos ouvir ainda nomes como o baterista dos Slowdive, Simon Scott, Rafael Anton Irisarri, Eluvium, Benoît Pioulard, bvdub, Mitchell Akiyama, entre outros. Em suma, apesar de ser um disco longo, afirma-se como uma excelente porta de entrada para quem desejar conhecer alguns dos melhores músicos da música ambiental actual.
Bom fim de semana.

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