Taking the long way home… through Stolzenhain. (II)

We might as well give up today
Because there’s nothing left for us anyway
— Pentagram, ‘Nothing Left’

 

…tal poderia ser esse o espírito do último South Of Mainstream que aconteceu no princípio deste mês. Um festival que sempre existiu à base de emoções, de teimosia, de vontade de provar que muitos quilómetros a sul do mainstream é que se está bem, a viver a sua última edição, facilmente poderia ter descambado para o negativo. Ainda por cima com bandas do calibre dos The Obsessed, dos Ides Of Gemini ou dos Obelyskkh, que não são exactamente agrupamentos de dança alegrezinhos. Mas não. O ambiente vivido foi o de sempre, ou até melhor – de celebração, de comunidade. E com as histórias do costume para contar.

Isso começou logo a ser notório no “dia 0”, de entrada gratuita e apenas com quatro bandas no palco indoor à noite. Desta vez, à lorde, fiquei no hotel – o mesmíssimo onde o Wino me recolheu há dois anos, e, as luck would have it, exactamente no mesmo quarto – e enquanto fazia o caminho de 10 minutos para o recinto, encontrei-me com um amigo inglês que não via há anos, acabadinho de chegar de Moscovo. Tinha ido ao recinto já, e a comida ainda não tinha chegado, e por isso ia em direcção à pequena vila de Stolzenhain à procura de alguma coisa. Uma ideia terrível. Stolzenhain tem um estabelecimento, que é o hotel. Nem nunca vi ninguém na rua. E àquela hora já não devia estar a servir nada de sólido no barzinho do rés-do-chão. Ainda assim, cerveja havia. A 3€ uma caneca de meio litro, portanto “jantámos” à farta, e chegámos com um ânimo imparável ao recinto, onde o grande Walter Hoeijmakers, do Roadburn, já estava pronto para fazer uns visuais para duas das bandas. Um psicadelismo a preto e branco que, com algumas canecas a percorrerem a corrente sanguínea, impressionou bem mais do que seria de esperar, ao ponto do quase-hipnotismo.

O dia seguinte, o primeiro propriamente dito do festival, fluiu de forma notável, especialmente considerando o horror organizativo em que se transformou a última semana antes do início do evento – nada menos do que cinco bandas cancelaram a sua aparição (desde bateristas doentes até irmãs da tia da prima da namorada não sei de quem a morrerem, tudo aconteceu), deixando o pobre do Andreas Kohl em apuros dos quais um homem menor não se teria safado. O Andreas não é um homem menor, e portanto tirou da cartola uns Whalerider que surpreenderam fortemente todos os que não os conheciam (vão descobrir com urgência, é Soundgarden+stoner/sludge e é uma cena!) e uns Kadavar que, mesmo sendo chatinhos como os Witchcraft sempre foram, lá apelaram ao público em geral. Boa parte dos primeiros concertos da tarde foram vistos da beira do lago, sentadinho com um drink, um luxo raro em ocasiões deste género, mas com os Whalerider e os regressados Ostinato (que fizeram o curioso percurso Washington – Istambul – Berlin para chegar ao festival, aparentemente o mais barato, e não dormiam há mais de 24h, e ainda assim deram um concerto tão potente como se se tivessem acabado de levantar) não havia corpo sentado que resistisse. Muito menos com o Wino e o Conny Ochs, dois kindred spirits que parecem um só quando se juntam num palco para tocarem as malhas do ‘Heavy Kingdom’ e outras pérolas. Nem perderam a concentração quando duas moças vagamente ébrias se uniram numa sessão de beijos calorosos à sua frente, nem sequer quando uma terceira moça num semelhante estado de intoxicação pediu repetidamente para o Conny tocar algo chamado ‘Joe Zombie’. Ninguém sabia o que era o ‘Joe Zombie’, nem sequer o desgraçado do Conny, que a certa altura ainda cedeu e perguntou “who the fuck is Joe Zombie?“, ao que o experiente Wino, que já aturou muito psicopata na vida, prontamente recomendou “don’t get sucked into it.

O dia não terminou sem um dos concertos do ano (sem exagero): os Stinking Lizaveta a partirem tudo mesmo com a impagável baterista Cheshire Augusta ao pé coxinho depois de um acidente de bicicleta há umas semanas atrás que até obrigou a cirurgia reconstrutiva. A senhora até precisa de ajuda para sair do palco, mas assim que se senta atrás da bateria, é como se não tivesse nada. O prato de choque não pára quieto e o turbilhão que já tomou conta dos irmãos Yanni e Alexis Papadopoulos, músicos ultra-brilhantes, alastra-se a ela sem problemas. Foi de bengala e com uma pala no olho à pirata que saiu de trás da bateria a certa altura, imitando uma velha de 100 anos, curvada, e apontando a bengala ao público, vociferou: “granny’s gonna rock the fuck out of all you motherfuckers!” Não se discute com isso.

Depois de uma tareia destas, o segundo dia tinha que ser diferente… e foi. Por causa dos cocktails. Sim, começou com dois singer/songwriters do melhor que há actualmente – o dinamarquês Kristian Harting e o Conny Ochs a solo, que até tocou a ‘Monster’ – para suavizar a coisa, mas os cocktails é que foi. É que havia um cocktail bar ao pé do lago, mas as bebidas de aspecto delicioso (e deliciosamente alcoólico também) eram bastante dispendiosas para pelintras como eu e a maior parte da minha entourage, e do cartãozinho de bebidas grátis que tínhamos enquanto membros da crew do festival, só uma é que podia ser trocada por cocktails (a senhora do cocktail bar fazia uma marcação diferente e tudo). Tudo bem, compreende-se. A banca até não era do festival, era independente. Só não contaram com um pormenor… um grande pormenor chamado Guy Pinhas. O Guy, que é um dos gajos mais cool do mundo, que vive num squat em Amsterdão, e que tem um currículo musical a condizer com essa pinta (Goatsnake, Thorr’s Hammer, The Obsessed, Acid King, Porn e Beaver – chega?), começou a aparecer junto do bando dos preguiçosos sentados à beirinha do lago com bebidas às cores, a uma frequência alarmante. Até nos dava a provar e tudo. Achámos estranho, e quando ele trouxe um vodka de caramelo para todos (e ainda éramos sete pessoas de cu na relva), foi quando decidimos investigar exactamente o que se passava. Ora, não só o abençoado baixista calvo tinha, numa primeira fase, dado a volta à moça do bar para ignorar a limitação de um cocktail por cartão, como, nesta fase adiantada, a senhora já lhe oferecia os cocktails para levar aos amigos. É o maior.

O que se seguiu não foi, obviamente, bonito. Mas deu para manter um nível de profissionalismo suficiente para ver todas as bandas, e até participar embaraçosamente na festa com algumas delas. Como durante o concerto dos Obelyskkh, por exemplo. O bom do guitarrista Torsten Trautwein, guitarrista extraordinário e detentor de um dos gostos musicais mais apurados que conheço, confiou o suficiente na amizade que nos une há alguns anos para me falar de um projecto que está a criar chamado Thronehammer. Um erro trágico. Vamos lá ver, Thronehammer é um daqueles nomes que dá gosto dizer. É tipo dizer HORRRRRRRNA com sotaque finlandês, ou TURBONEGRO com sotaque norueguês. THRONEHAMMERRRRRR. Rola bem. Consta, portanto, que durante as pausas entre os primeiros temas dos Obelyskkh (que grande concerto, já agora, cheio de malhas novas já pós-‘White Lightnin”), um barbudo com uma t-shirt dos 16 alimentado a cocktails de caramelo decidiu gritar pelos THRONEHAMMERRRRR a alto e bom som algumas vezes, para divertimento geral dos elementos da banda.

Já com a cabeça mais limpa de resíduos de caramelo, e depois de consumir mais meia dúzia de salsichas com ketchup (é um crime comer outra coisa qualquer nesta zona da Alemanha) para ensopar, deu para participar em várias actividades sociais. A saber:

– prestar a devida vénia ao J. Bennett, que pareceu genuinamente surpreendido por eu lhe ter dito que ele era uma grande influência na minha escrita. O que é, mais ninguém diz isso ao homem? Qual é o vosso problema, ó escribas pedantes?

– dar os parabéns ao Andreas Kohl, que, num conflito de emoções, comemorava 40 anos no último dia do festival por que tanto lutou – houve bolo com caveiras e motoqueiros de açucar e um pentagrama de chantilly desenhado, um golpe de confeitaria genial.

– aguentar-me acordado depois dos The Obsessed, que escavacaram tudo sonicamente e emocionalmente (improvavelmente, já vi os The Obsessed versão Wino-Pinhas-Rogers duas vezes no mesmo ano), com partida marcada para as 3.00am no primeiro shuttle para o aeroporto, só para prestar homenagem aos Master Musicians Of Beate – uma paródia de uma paródia de um nome, que basicamente consiste de um monte de músicos da zona a tocarem coisas amalucadas em homenagem à mulher do Andreas, de seu nome Beate, um dos pilares de toda esta organização.

Sem dormir, com vontade de passar mais uma semana inteira naquele lago a ouvir bandas e a beber cocktails de caramelo, lá me enfiei num carro com um Greg Rogers no mesmo estado e com um voo ainda mais longo pela frente, para um melancólico regresso a casa, só atenuado pela leitura obsessiva de ‘The Sisters Brothers’ de Patrick deWitt, um dos livros que mais me surpreendeu nos últimos tempos e que recomendo vivamente a fãs de Cormac McCarthy ou Charles Portis. Vale mesmo a pena.

 

Para uma apreciação mais puramente musical da performance das bandas, e com menos referências a cocktails, podem ir buscar a LOUD! de Outubro, se me é permitida a publicidade – está lá tudo, em página e meia inteiramente dedicadas.

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