Taking the long way home… through Town(es).

So walk these hills lightly, and watch who you’re lovin’
By mother the mountain

Townes Van Zandt, ‘Our Mother The Mountain’

Escrevo-vos, de facto, em frente a uma montanha, de um dos sítios mais remotos por onde já passei, um daqueles que até faz pensar se esta brincadeira de tomar sempre o caminho mais longe não tomará já contornos de exagero – é só googlarem o complicadinho nome Neskaupstaður para verem o estapafúrdio que foi este desvio, com a agravante de ser a minha segunda vez aqui. Fica prometido para a semana um post longo e, com sorte, não muito aborrecido, a explicar o que é que eu venho para aqui fazer e as coisas que me aconteceram durante a estadia.

Esta semana, portanto, uma breve pausa nas historietas festivaleiras – em vez do destino da viagem, é justo desta vez dar o foco a um dos principais compagnons de route sonoros, que tem sido, consistentemente, o grande Townes Van Zandt. Ainda que as montanhas do Colorado, que tantas vezes eram pano de fundo das suas cruas canções vindas das tripas, tenham muito pouco a ver com as montanhas vulcânicas da Islândia, há nessas canções um feeling de nómada errante e de distância melancólica que as universaliza de forma magnífica enquanto música-de-viagem. É apropriado, também, nesta altura, parar um pouco para pensar em quem foi Townes e o que significou, pelo ressurgimento que está a ter em círculos musicais muito próximos aos que, enquanto amplificasonzeiros, frequentamos. Sempre foi assim, cíclico, o interesse no singer/songwriter americano. Mesmo tendo tido um razoável nível de reconhecimento (ainda assim, arrancado a ferros) durante uma vida tristemente atribulada, o pico da popularidade deu-se alguns anos depois da sua morte em 1997, com a edição de vários livros biográficos e, acima de tudo, do documentário ‘Be Here To Love Me’, de visualização indispensável para toda a contextualização da sua obra. É um registo triste, ou na melhor das hipóteses amargamente celebratório, mas também com momentos de rara beleza.

Num processo com algumas analogias ao que trouxe o Johnny Cash para os hábitos diários do ouvinte de música alternativa no início dos anos 90, são muitos os que descobrem actualmente o Townes através de outros brilhantes músicos do nosso tempo que prestam a devida homenagem. Certamente que quem esteve presente nos concertos a solo do Scott Kelly no Passos Manuel e/ou no Santiago Alquimista, em 2011, não deixou de ficar particularmente afectado pela rendição arrepiante de ‘Tecumseh Valley’ que o carismático músico norte-americano deixou para o fim da sua actuação, independentemente do nível de familiaridade que tivesse na altura com Van Zandt. Também Conny Ochs, sublime cantautor germânico que gravou recentemente um álbum com Wino, tem por hábito fazer de ‘Waiting ‘Round To Die’ um dos pontos altos dos seus concertos, para quem já teve a sorte de o apanhar. No Roadburn deste ano, por exemplo:

(video por Luana Magalhães)

Pois bem, agora surge o culminar lógico dessa admiração dos Neurosis-e-“família” pelo texano, com a edição de um disco de versões de temas seus interpretadas por Kelly, Steve Von Till e Wino, ‘Songs Of Townes Van Zandt’. Não só é indubitavelmente um dos discos mais interessantes do ano, tout court, pela maneira como cada um dos três passa os temas que interpreta pelo seu próprio filtro pessoal, apropriando-se deles de forma magnífica, mas também pode, e deve, ser um ponto de partida para a (re)descoberta de toda a dimensão de Townes Van Zandt.

Podia seguir-se agora uma vasta descrição dos discos do Townes e dados biográficos a rodos, mas todos vocês têm a Wikipedia a um clique de distância e, francamente, apetece-me mais é ir brincar para o fiorde que vejo da minha janela neste momento. Certamente compreenderão. Não há grandes recomendações que se possa fazer, também – os discos são todos essenciais. Para quem não conhece, que comece pelo primeiro e que vá ouvindo todos até ao último. E depois veja o documentário. Exercício curioso – experimentem gravar o ‘Songs Of Townes Van Zandt’ do Kelly/Von Till/Wino e, logo a seguir no mesmo CD (cabe tudo), gravem pela mesma ordem todas as versões originais dos temas, interpretadas pelo Townes nos discos. É uma experiência magnífica, e confesso que desde que meti esse CD no carro, nunca mais consegui ouvir outro.

Comentários

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  1. redneck tuga

    alguém me linka o songs of townes?? ando desesperado!!

    Em relação ao texto, não me fez ter mais curiosidade em pesquisar mais sobre o senhor, porque já pesquisei bastante. Ainda assim, é bom para alertar os mais desatentos para a qualidade do trabalho do Texas Troubador

  2. Ricardo Proença

    Um post que vem em grande altura.

    Também estive no concerto do Scott Kelly em Lisboa e lembro-me que ele tocou 2 ou 3 músicas do Van Zandt. Uma delas foi o “St. John, the Gambler” que aparece agora no “Songs Of Townes Van Zandt”.

    Na altura gostei das músicas mas não procurei saber mais.

    Só quando saiu a primeira música do álbum, que por acaso foi o “St. John, the Gambler”, é que comecei a pesquisar mais sobre esse músico que para mim era desconhecido. E pelo menos no Youtube já deu para apanhar o “Black Crown Blues” que é uma grande música e que conta com versão do Steve Von Till no álbum supracitado.

    Coincidência ou não, também na mesma altura saiu o primeiro single do álbum a solo do Nate Hall, dos U. S. Christmas, que também é uma cover do Van Zandt (“Kathleen” – http://www.youtube.com/watch?v=b5XwokLTEpA). Já agora aconselho vivamente o álbum do Nate Hall – A Great River. Irá estar com toda a certeza em muitos dos tops de 2012.

    José, para quem se está a iniciar no Townes Van Zandt quais são os álbuns que tu recomendas?

    PS – já agora alguém alguma loja onde se possa comprar música via internet (Cds, Vinis, etc)? Lembro-me do André falar numa loja do Porto, de indicar o site e de eu gravar isso nos meus bookmarks mas não encontro isso.