Tema e Variações: Compre Som

Que há mais pirataria hoje em dia, já todos sabemos. Que a indústria está a mudar, idem aspas. Mas há ainda muita gente a comprar música, e esta não precisa de ser uma prática irreflectida. Habitualmente espero uns largos meses antes de comprar algo, para determinar se estou só a ir atrás de um hype ou se o álbum tem de facto “replay value”. Se tiver, dou prioridade a lançamentos de pequenas editoras, principalmente quando me identifico com a visão delas. Só que esta contribuição financeira não é totalmente altruísta – em troca quero uma edição física do disco (digamos que estou também a pagar pelas letras das músicas impressas, pela capa, e pelo prazer de ver o crescimento da colecção em casa).

Este é um tema que pode ter de facto várias variações, porque há tantas formas diferentes de comprar música. Quer estejamos interessados em faixas individuais, ou em sistemas como o Spotify ou o Bandcamp, ou ainda em álbuns à venda nas grandes lojas internacionais, a tendência parece ser a mesma: recorrer à internet. Tendo em conta a conveniência, o conforto e, muitas vezes, o menor preço, parece haver poucos argumentos a favor das lojas de música. Olhamos em volta e vemos a Lost Underground a fechar, a Jo-Jo’s a passar a operar exclusivamente online, e a Carbono a mudar o seu modelo de negócio. A Piranha, a Matéria Prima e a Louie Louie lá vão sobrevivendo, mas até quando?

Deixo espaços como a Fnac de fora porque aquilo não é uma loja de música, é um negócio diversificado sem grande política cultural. Vou comprando lá coisas que não encontro noutros sítios, da mesma forma que compro na Amazon ou no eBay (a quantidade de “edições limitadas” que nem sabíamos que existiam é incrível). Fora isso, por que não pagar mais 1 ou 2€ por um atendimento mais personalizado e feito por alguém que decidiu dedicar a sua vida a vender música? Claro que, mesmo que isto chegue para convencer os consumidores quanto ao aspecto financeiro, ainda não convence a nível do conforto. E aí o problema está nas duas partes.

Antigamente, ir a uma loja de música significava olhar para capas de álbuns, ver a que editoras pertenciam, que engenheiros e produtores estiveram envolvidos e, se isso não chegasse para dar um voto de confiança a uma nova banda, conversar um pouco com o vendedor. Agora, a não ser em casos de pré-encomendas e coisas do género, podemos frequentemente ouvir um álbum na íntegra e ter mesmo ao lado um botão para fazer o download ou a encomenda. Por outras palavras: se o hábito de ir de propósito a uma loja para conhecer bandas não está morto, está moribundo.

Não é pelos álbuns que as pessoas vão às lojas de música; não é, também, pelas recomendações dos vendedores. Mas pode ser por bilhetes de concertos sem as taxas da Ticketline; pode ser por showcases ou conversas entre artistas, à semelhança do que algumas livrarias fazem; pode ser por edições exclusivas ou álbuns autografados; pode ser por listening parties, dias temáticos e por aí fora; podia até ser por uma fusão com lojas de venda e reparação de instrumentos, coisas que são mais difíceis de tratar através da net. O cinema a cores tornou praticamente obsoleta a profissão de colorista; a internet e a globalização têm o mesmo efeito nos vendedores, que nem sequer têm qualquer influência no produto artístico final. A sobrevivência passa pela adaptação, já dizia o Darwin. Um apaixonado por música terá alguma dificuldade em encontrar argumentos que persuadam alguém que desvalorize a cultura. No entanto, se lhe conseguir proporcionar uma experiência única, que germine nele o mesmo sentimento, o resultado poderá ser bem diferente.

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