Tema e Variações: Compressom

Se nos fosse imposta a escolha entre ficarmos surdos ou cegos, a maior parte das pessoas optaria pela surdez. O motivo é simples: a visão é o sentido mais fundamental para a vida em sociedade, para a nossa orientação, até para a realização das tarefas mais básicas. Mas curiosamente, para além de raramente pensarmos na culinária ou na criação de perfumes como artes, apesar de apelarem a dois dos nossos sentidos, é a música que atrai mais pessoas no mundo inteiro. Alguém que não goste de literatura, de cinema ou de qualquer tipo de arte visual poderá ser visto (injustamente) como inculto ou estranho, mas o verdadeiro outsider é aquele que não gosta de música. Em parte, isso deve-se ao facto de ser uma arte que não exige a nossa atenção total, conseguindo, mesmo assim, provocar alterações em nós. Os exemplos são inúmeros, desde o desconforto sonoro de um filme do David Lynch até à loja de vinhos que recorre a música clássica na esperança de que os clientes se sintam aristocratas e sejam conduzidos aos vinhos mais caros (não estou a inventar coisas). A indústria discográfica sempre esteve a par desse efeito da música em quem a ouve, e ao longo das décadas recorreu a várias estratégias para aumentar as vendas. Uma, particularmente problemática, é a do aumento do volume.

Nos anos 50, quando cada lar parecia ter um rádio, percebeu-se que uma forma de captar a atenção de alguém que já estava a ouvir música há algum tempo era simplesmente passar uma música com mais volume. Se o aumento fosse subtil, os ouvintes mal notavam essa diferença, iam pensar que tinha sido a música em si a despertar interesse, e acabavam por comprar o vinil. O problema é que continuar com essa estratégia durante décadas a fio pura e simplesmente não funciona. Principalmente com meios digitais, é bastante óbvio que se atinge um limite que não pode ser ultrapassado, sob a pena de criar distorção indesejada no som. Se há dúvidas quanto ao aumento nos últimos 20 anos, compare-se o Dopesmoker remasterizado, lançado em 2012, com o Holy Mountain dos mesmos Sleep, lançado em 1992 (sim, eu sei que devia comparar com o Dopesmoker original, mas esse não o tenho. Aguentem-se). Mesmo para um completo leigo em termos de som, basta saber que a altura das ondas sonoras corresponde ao volume, e através disso já se vê qual é qual.

Na Dopesmoker estamos, inquestionavelmente, no limite do volume

Duas ferramentas essenciais neste campo são os compressores e os limiters. Não só irão impedir que o som distorça por excesso de volume, permitem, também, que os sons mais suaves sejam mais audíveis. Um dos problemas é que, quanto mais agressiva for a limitação do som, mais óbvia irá soar a alteração.

O "corte" feito por um limiter

Esta tendência conhecida como Loudness War não se limita à música de rádio, e podemos admitir que tem algumas vantagens: imaginem se cada música no Spotify ou na vossa biblioteca pessoal estivesse com um volume diferente. Mas outro dos principais problemas da compressão é que o tal aumento de volume das partes mais silenciosas, quando mal feito, aumenta também ruídos indesejados e, quando bem feito, diminui na mesma a gama dinâmica da música. E nem faz grande sentido que o volume de um sussurro e de um berro seja o mesmo (olá, Trent Reznor). Ouvir um álbum inteiro com um volume fixo é o equivalente a escutar um longo diálogo de um actor monocórdico – cansa-nos. Exemplos? Californication dos Red Hot Chili Peppers, Vol. 3: (The Subliminal Verses) dos Slipknot, Death Magnetic dos Metallica, 13 dos Black Sabbath. E isto sem sair dos álbuns produzidos pelo Rick Rubin, tão deificado pela indústria musical (mas no que diz respeito à orientação das bandas durante o processo de gravação, aí podemos reconhecer o seu mérito).

Também nisto há alguns aspectos mais ou menos positivos: na rua, num comboio ou num autocarro continuamos a conseguir ouvir as passagens calmas da música; em casa, ao usar música de fundo, não somos demasiado distraídos por refrões e outros pontos altos; e, usando auscultadores, não nos arriscamos tanto a causar danos auditivos em mudanças súbitas de volume. Na recusa em aderir a esta tendência, muitos álbuns de música clássica acabam por se provar inadequados para audição em casa, a não ser que se tenha equipamento de alta qualidade. Mas, ao vivo, mantêm um elemento que confere imenso poder emocional à música. A magia de um concerto acústico também passa, muitas vezes, por aí. Para quem não estiver convencido e precisar de provas: Scott Kelly, na próxima semana, e Michael Gira, a 4 de Março.

 

Início da 9ª Sinfonia de Beethoven, pela Orquestra Gulbenkian

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