Tema e Variações: E Depois do Adeus

“He knew everything about literature except how to enjoy it.” A frase surge no “Catch-22” do Joseph Heller, mas todos nós conhecemos alguém assim, seja ligado à literatura, ao cinema ou à música. Prosseguindo com a ideia da semana passada, a música enquanto arte requer mais esforço da nossa parte para aproveitarmos tudo o que ela tem para oferecer, mas parece que, em algumas pessoas, o prazer em ouvir música vai sendo gradualmente substituído pelo prazer em conhecer música. Em “Introduction to the Sociology of Music”, Theodor Adorno designa este tipo de ouvinte como “o coleccionador de discos”, um ouvinte que se pode tornar bastante culto e recorrer a essa erudição como uma estratégia em situações sociais, sem precisar sequer de saber grande coisa sobre música. É visto, mesmo assim, como um ouvinte mais respeitável do que aquele que ouve música despreocupadamente, por puro entretenimento, e do que aquele que ouve música para se sentir emocionado. Nas oito categorias criadas pelo sociólogo existe ainda espaço para o “ouvinte ressentido”, o que ouve os clássicos para procurar falhas nas interpretações.

Passando para outro autor, Peter Gammond (ele próprio um crítico de música) comenta jocosamente que os críticos “são todos compositores ou músicos falhados e por isso sabem melhor do que qualquer outro o que significa o fracasso, tendendo a fazer dele o seu assunto predilecto.” Isso seria um “coleccionador de discos ressentido”, combinando duas das categorias de Adorno, e temos de admitir que há ponta de verdade nisso. Contra mim falo, já que tenho tendência a olhar para uma obra e a pensar no que lhe falta para atingir a perfeição (seja lá o que isso for); se não encontro grandes defeitos, sinto o impulso de a partilhar com outras pessoas que também a possam apreciar. No fundo, foi isso que me motivou a começar a escrever sobre música.

Há, porém, outra forma de ver as coisas. Alguns autores consideram que a crítica passa menos pelo acto de avaliar (de determinar o valor) e mais pelo acto de valorizar (de dar valor). Acho que, hoje em dia, isso faz mais sentido do que nunca. Pela quantidade de música que temos disponível, seria ridículo pensar que podemos ouvir tudo. Pessoalmente, desisti até de tentar ouvir tudo de todas as bandas de que gosto: alguns artistas são demasiado prolíficos e não há tempo para ouvir tudo o que lançam. Não preciso, portanto, de motivos para não ouvir algo. Quando leio uma crítica, é habitualmente uma avaliação positiva de um artista de que já gosto, mas não por uma questão de confirmation bias: apenas quero saber que pormenores o autor do texto considera dignos de destaque, esperando eu melhorar assim a minha experiência auditiva. Há outros motivos que me levam a ler críticas (gostar do estilo de escrita do autor do texto, querer conhecer uma banda que está a crescer rapidamente, etc.), mas diria que esse é o principal.

Sem querer ser muito “metacrítico”, devo dizer que, à medida que ia escrevendo para o Ponto Alternativo, fiquei simultaneamente mais confiante na escrita e mais crítico das minhas críticas. Não tenho grande interesse em tentar reflectir num texto as emoções presentes nas músicas nem adoro prosa poética, pelo que tentei, mais e mais, enveredar pela via histórica. Viria a reparar que a insatisfação com a minha escrita passava, muitas vezes, pelos mesmos problemas que François Truffaut (também ele um crítico) apontava aos maus críticos de cinema em 1955. Vou resumi-los e adaptar à música, mas podem ler o texto original (traduzido para português) aqui. Seriam, portanto, estes os sete pecados da crítica musical:

1) ignorância completa da História do Música;
2) ignorância da técnica instrumental e teoria musical;
3) ausência total de imaginação;
4) preferência pela música nacional, pelo facto de os críticos conhecerem pessoalmente as bandas;
5) tom insolente ou professoral;
6) julgar os discos segundo as “intenções” dos compositores;
7) idade excessiva dos críticos, incapazes de acompanhar o desenvolvimento da arte

A meu ver, quase todos os pontos continuam pertinentes e sinto, em particular, problemas nos dois primeiros. Tendo em conta o estilo que adoptei, pareceu-me óbvio que preciso de mais cultura para que as pessoas tenham motivos para dar importância ao que tenho a dizer. Tanto Peter Gammond como Truffaut escrevem melhor do que eu e recomendam ambos a não se dar importância ao que dizem os críticos, e como respeito as suas opiniões senti-me tentado a dar importância ao que eles dizem e deixar de lhes dar importância, mas aí deixo de ter motivos para seguir a recomendação deles. Enquanto não saio deste dilema, decidi que é melhor parar de escrever durante uns tempos.

Há vários músicos que também vão escrevendo sobre música, mas eu não sou o Stephen O’Malley, o Berlioz ou o Pinho Vargas. Durante o resto do ano quero ouvir e compor mais música, por isso este será o último texto por agora. Tal como em 2012, tenho de terminar agradecendo ao André o convite e, se a tradição for escrever para a Amplificasom nos anos pares, vemo-nos novamente em 2016.

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