Tema e Variações: Guilty Pleasures

De Bach a Zeca Afonso, de Madredeus a Eminem, de Linkin Park a Metallica, de Opeth a Dead Can Dance, de Bohren a Arvo Pärt (e de Arvo Pärt a Bach)

Só muito recentemente é que me apercebi que o meu percurso musical foi tão incomum quanto natural. Quer queiramos quer não, todos começamos por ouvir a música que os nossos pais têm em casa. Durante a primária quase não tenho memórias musicais (desenhos animados eram bem mais interessantes), e no início da adolescência ouvia a música popular entre os meus colegas. Já não sou do tempo das cassetes, mas ainda me lembro de ter conhecidos em lojas de música que me faziam cópias dos discos que eu queria ouvir, de ter amigos a arranjar outros CDs com muito esforço, e de fazermos compilações que trocávamos entre nós (depois chegamos a 2013 e fazemos uma limpeza profunda ao quarto e encontramos CDs com músicas dos Blink 182, Evanescence e HIM…). Na minha escola não havia propriamente grupos de góticos, punks e restantes subculturas, pelo que o que era ouvido era simplesmente o que era popular na MTV e afins. Mas esse interesse pela música foi crescendo até ao ponto em que ouvir já não chegava – tanto o Cliff Burton como o Flea davam uma vontade desgraçada de comprar um baixo. E nunca me esqueço da resposta de um dos meus melhores amigos no secundário quando lhe disse que comecei a tocar baixo: desprovido de sarcasmo e com uma curiosidade genuína, perguntou “para quê?” Essa pergunta surge-me ocasionalmente na cabeça quando tento aprender uma música nova, quando decido escrever acerca de um álbum, ou quando tento perceber o objectivo de uma banda num determinado trabalho. As perguntas mais simples são as que nos fazem pensar mais.

Perdoem-me a repetição aqueles que já o leram, mas foi com este post que procurei explicar o valor que vejo na Amplificasom. A nível pessoal, é a inovação que me faz querer consumir mais e mais música. Não é uma letra de heavy metal que me enche de adrenalina nem uma música de amor que me deixa comovido; o sentimento mais profundo que habitualmente encontro na música pode ser traduzido em palavras como “ena, nunca tinha pensado nisto e funciona mesmo muito bem. A criatividade da espécie humana continua bem viva e nunca devemos baixar os braços, há sempre soluções novas”. Acho que não há maior força do que essa e podemos sentir isso quer estejamos em baixo quer estejamos eufóricos.  E é assim que se acaba com a noção de guilty pleasures ou de gostos elitistas. Porque é que posso estimar Slipknot? Porque aos 14 anos não fazia ideia de que era possível fazer música tão agressiva, e isso foi uma autêntica novidade para mim. Porque é que não vendo os discos do Eminem? Porque pensava que a música se baseava sempre em melodia, e ouvir jogos de palavras em universos onde o ritmo impera foi uma novidade para mim. O percurso da história da música e o percurso pessoal são coisas totalmente diferentes. Os Green Day são mais importantes para mim do que os Black Flag porque foi por aquela via que cheguei ao punk. Mas não vou dizer que são melhores músicos ou mais originais ou o que quer que seja. Apenas que devemos ser tolerantes com as preferências dos outros e, simultaneamente, incitá-los a expandir horizontes, tendo noção de que as coisas mais acessíveis são igualmente relevantes – o cliché do “ser preciso aprender a caminhar antes de aprender a correr” existe por algum motivo.

E não é para nos sentirmos velhos mas, para a maior parte das pessoas que está agora no secundário, bandas como Nirvana, Rage Against the Machine ou Godflesh pertencem já a um passado remoto, estão tão distantes quanto os Pantera ou os Guns N’ Roses, os Beatles ou os Stones . Percursos pessoais vão-se alterando de década para década; a história da música vai apenas acumulando dados, sem substituir nada. Olhar em retrospectiva, quer para uma coisa, quer para a outra, pode levar-nos à descoberta de outros caminhos.

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