Tema e Variações: Música do Povo

Com os dois últimos textos despachámos as questões ligadas à música “erudita” e à “world music”. Algures entre essas duas situa-se a música “do povo”. Aqui há mais problemas terminológicos porque, ao passo que música clássica, erudita e literata são sinónimos, música popular e folclórica são coisas diferentes.

O folclore é um termo bastante familiar para nós, até porque a variação na música de região para região em Portugal é bastante impressionante, tendo em conta a pequena dimensão do país. Etimologicamente, “folk lore” quer simplesmente dizer “conhecimento do povo”. São aquelas coisas que todos reconhecemos e não fazemos ideia de onde vêm. Quando ouviram pela primeira vez a “Atirei o pau ao gato”? Quem é o autor? Em que ano foi escrita? Se não se sabe, também não interessa. A ideia de que a música folclórica é criada em grupo, improvisando, é já um bocado datada, e actualmente é mais comum pensar-se que uma música teve um autor específico e foi sofrendo alterações ao longo dos tempos, visto que se transmitia quase exclusivamente pela tradição oral. O facto de não ser escrita tinha ainda uma segunda consequência: se uma música não fosse popular, se ninguém a ouvisse, simplesmente desaparecia. O revivalismo do século passado complicou as coisas. Seria correcto dizer que a música do Bob Dylan é inspirada pela música folclórica, mas dizer que Dylan é folk faz muito pouco sentido, se pensarmos no assunto. Música tradicional nova é uma contradição de termos. A possibilidade actual de gravação desta música retira-lhe a característica fundamental de ir sendo modificada ao longo dos anos por lapsos de memória ou improvisações deliberadas. E a comercialização da música “folk”, bem como a valorização do cantor, são traços típicos da música popular.

Para sermos justos, a “música popular” está relativamente perto da música folclórica: a própria palavra “popular” indica que é música do agrado do povo. Ainda assim, há uma maior valorização da inovação e dos intérpretes, embora tenha de existir um balanço, pois a acessibilidade é crucial. A estranheza inicial do rock foi-se dissipando ao longo destes 50 anos, e hoje em dia bandas como Beatles, Pink Floyd, Muse, Audioslave ou Nirvana, globalmente falando, podiam inserir-se perfeitamente no rótulo de música pop. Mas, do mesmo modo que distinguimos música folclórica e música folk, também nos dá jeito separar música popular (indicador de sucesso) e música pop (género musical). Tanto uma como a outra buscam o sucesso e o lucro, e isso sim, é uma característica bastante própria da música do Ocidente nos últimos cem anos.

É óbvio que existem excepções: o yodel dos Alpes Suíços é tão singular na Europa que desde cedo surgiram músicos semiprofissionais; existem tribos africanas que designam músicos específicos para determinadas ocasiões, e isso era ainda mais importante entre os Aztecas, que raramente usavam música fora de cerimónias religiosas, nas quais qualquer nota errada era severamente punida. Mas em pequenas culturas que usam a música apenas como entretenimento (e elas existem), a noção de músicos profissionais faz muito pouco sentido. E ainda menos sentido fará a nossa divisão entre espectadores e intérpretes, uma divisão que se materializa através das grades que nos separam do palco em muitos concertos.

Apesar de alguns autores atribuírem esse fenómeno a comportamentos de manada ou à “cultura de massas”, os problemas fundamentais residem no capitalismo enquanto determinante de quem tem ou não acesso aos bens ou aos eventos, e ao culto da personalidade que nos leva a valorizar mais o criador do que a criação. O sociólogo Walter Benjamin, por exemplo, era invulgarmente optimista, vendo o cinema como um meio no qual o processo de criação do produto final era perfeitamente visível e reprodutível, desmistificando a arte e aproximando-a do público. Se tivesse sobrevivido à 2ª Guerra Mundial, o autor judeu teria certamente apreciado o cinema neorrealista italiano, com tantos actores não-profissionais.

Hoje em dia é extremamente fácil aprender a fazer música, principalmente quando se tem uma ligação à internet e, mesmo que não se tenha meios para adquirir instrumentos, há inúmeros programas que permitem criar música electrónica. A ideia de que um álbum é uma construção única e completamente original vai sendo ultrapassada (apesar de não ser o maior fã da banda, gosto imenso do modo como os Darkthrone desconstruíram recentemente os seus lançamentos, com comentários por cima das músicas) e a barreira que separa os artistas dos “meros mortais” é constantemente deitada abaixo – se alguém esteve num Amplifest ou num Milhões de Festa e não falou com nenhum músico, foi simplesmente porque não quis. Claro que podemos continuar a admirar certas criações – a arte quase nos obriga a isso – mas a música deve ser vista como uma actividade aberta a todos.

O problema é que esta é uma área perigosa: valorizar a criação e distribuição de música por amor (portanto, o amadorismo) pode enfraquecer o sector da cultura, já por si tão debilitado. A Unesco tenta contornar o assunto do lucro nas artes, defendendo que são actividades que conferem uma voz aos mais desfavorecidos, que desenvolvem uma herança cultural que promove a coesão de grupos, e que dão uma nova vida às cidades, criando assim um cenário propício a mais criação e inovação. Podemos concordar com tudo, e defender que as competências criativas que o contacto com a arte pode desenvolver é um traço tão útil em cientistas e economistas como em músicos, e nada disto nos impede de criar um balanço entre a arte gratuita e o artista profissional: só porque um disco está a 0€ no Bandcamp, nada nos impede de pagar por ele, e não estamos a ser estúpidos. Ser o consumidor a definir quanto está disposto a pagar por algo parece uma utopia, e as economias de oferta são alvo de grandes debates. Mas se estamos sempre a dizer que a arte não tem preço, podemos começar a pensar mais a sério nessa questão.

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