Tema e Variações: Música Sem Classe

Escrevi, em 2012, uma série de textos para a Amplificasom, todos eles ligados a compositores do século XX, mas já aí senti um problema que preferi ignorar: usei inúmeras vezes a expressão “música clássica”, sabendo perfeitamente que ela está um pouco errada, mas que isto é uma luta difícil de travar. Já que me voltaram a dar tempo de antena, vou tentar explicar hoje o porquê.

Não é preciso saber muito de história para saber que gostamos de organizar as coisas e que houve um período a que decidimos chamar Renascimento, outro a que chamámos Barroco, etc. Na música, o período Clássico é o período após o Barroco. Bach morreu em 1750, o Barroco praticamente morreu com ele, e podemos pensar no período Clássico como aquele entre 1750 e 1827, ano da morte de Beethoven. Isto não é bem assim (as datas exactas são alvo de debate), mas sempre achei mais fácil memorizar balizas temporais associando-as a eventos relevantes. O que interessa é que decidimos que esse foi o período sagrado da música. Estava decidido que Bach tinha sido o maior génio musical de sempre, reconhecemos que, apesar de ser impossível superá-lo, Haydn, Mozart e Beethoven bem tentaram, e vimos aí uma continuidade concreta, sempre em Viena. Só em meados do século XIX é que começámos a chamar “música clássica” não só à música desse período, mas também à de Bach e a toda essa tradição ocidental. Associamo-la às cortes e às igrejas mas, mais importante do que isso, à notação musical. Há vários factores em jogo, mas não terá sido coincidência o grande desenvolvimento da música “clássica” na Europa após os também grandes desenvolvimentos na escrita da música.

A música popular e a música tradicional não dependem tanto da escrita nem se preocupam tanto com o desenvolvimento e com a novidade, e eventualmente houve uma cisão. Chamamos também à música clássica “música erudita”, “art music” e outras coisas semelhantes, mas será que hoje em dia essa distinção faz sentido? O Steven Wilson tem um enorme conhecimento de prog rock, o Fenriz conhece profundamente a história do black metal, mas vamos chamar a Porcupine Tree ou a Darkthrone música clássica ou erudita? Se não, por que não? Não será o conhecimento da história uma das formas mais típicas de erudição? Se optarmos por uma definição ligada a um conhecimento mais centrado na técnica e teoria musical, será Dream Theater música clássica?

Eu diria que não, nos três casos, mas há poucos argumentos convincentes. Compor música para orquestra não significa necessariamente compor música clássica, e compor música sem ser para orquestra não significa que o autor não esteja ligado à música clássica (Stockhausen, por exemplo). No piano, então, a distinção é ainda mais difícil. O ponto mais fundamental estará, possivelmente, na tal questão da escrita da música. O texto do Pinho Vargas que partilhei na semana passada referia isso de passagem. Richard Taruskin, um dos mais importantes musicólogos vivos, recorreu algumas vezes à expressão “música literata”. Parece-me uma forma excelente de resolver a questão, porque põe em relevo a importância da partitura (precisando, muitas vezes, de ser terminada antes de a música poder ser ouvida) e não tem as imprecisões da expressão “música clássica” nem os problemas de “música erudita”. Parece-me, também, que não vai pegar assim tão cedo. Costumes antigos são difíceis de mudar.

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