Tema e Variações: Pianistas Invisíveis

Costumamos pensar no vinil como algo “retro”, embora o formato com as características que actualmente conhecemos tenha aproximadamente a mesma idade que o Michael Gira que por cá passou na Terça-Feira. Quase 100 anos antes do surgimento deste formato, Léon Scott criou em França o fonoautógrafo que, como o nome indica, era um mecanismo automático para escrever (captar) sons, não havendo nessa altura forma de ouvir as gravações. Só duas décadas depois, em 1877, surgiu um aparelho que tanto era capaz de gravar como de reproduzir – o fonógrafo de Edison. Tal como a invenção de Léon Scott, também o fonógrafo se servia de cilindros (Edison sempre teve uma certa fama de ter o talento necessário para melhorar as inovações dos outros e a astúcia para as comercializar sem dever nada a ninguém), mas o gramofone, saído da Alemanha, viria a conseguir afirmar-se, primeiro no mercado europeu, depois no resto do mundo. Um dos responsáveis por esse sucesso foi Enrico Caruso, um dos mais importantes tenores da sua época, pois foi a primeira grande figura da música a deixar-se gravar (este canal tem uma colecção incrível de gravações de Caruso entre 1902 e 1920). O gramofone usava discos em vez de cilindros, e Edison desistiu de tentar competir em 1929.

Como podemos imaginar, tudo isto alterou profundamente o mundo da música. Antigamente, se quiséssemos ouvir cinco vezes a mesma música, teríamos de ouvir cinco execuções diferentes, provavelmente em concertos (e, portanto, contextos) diferentes, mas agora basta-nos carregar no botão de loop; nenhuma pessoa viva ouviu Bach, Mozart ou até mesmo Beethoven a tocar, mas gravamos inúmeras interpretações, discutindo qual delas será a mais fiel às intenções do compositor; com o baixo preço das máquinas fotográficas e a afirmação dos smartphones, até a música ao vivo deixou de ser um evento único, havendo registos de tudo e mais alguma coisa. Cada uma destas discussões (e muitas outras) daria um livro. O tema desta semana é muito mais simples.

Antes do surgimento destes formatos de gravação, já existia uma forma de ouvir música previamente “preparada”: foi no início do século XIX que surgiram as caixas de música, que ainda hoje são populares. Décadas de refinamento do seu mecanismo conduziram à criação de pianos que tocavam automaticamente ao ler rolos de papel que, à medida que giravam, indicavam os momentos em que deveriam soar as notas. Na verdade, a Pianola era um instrumento específico (chamarmos pianola a qualquer piano automático é um pouco como chamarmos “Black & Decker” a qualquer berbequim), e havia outros pianos baseados no mesmo conceito; também aqui, foi a combinação de marketing e de refinamento de ideias que permitiu, em 1897, o maior sucesso da invenção de Edwin S. Votey.

Nos anos 20, a pianola era incrivelmente popular e enchia de jazz muitas salas americanas. A certo ponto, nesse país, chegaram a ser fabricadas mais pianolas anualmente do que pianos. Com o surgimento do rádio e com o crash da bolsa em 1929, o mercado das pianolas praticamente desapareceu, tendo ressurgido, de forma bem mais modesta, alguns anos após a segunda guerra mundial. Apesar de já estarmos, aí, na era das jukeboxes e das vendas de milhões e milhões de vinis, o instrumento lá foi sobrevivendo até hoje, podendo agora dispensar os rolos de papel e usar sistemas electrónicos para activar as teclas.

De uma forma ou de outra, adoro o conceito por detrás da invenção. Não me lembro de já ter visto ao vivo uma a tocar, mas ponham isto à minha frente e fico lá especado como uma criança maravilhada.

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