Tema e Variações: Piiiiiii

Na semana passada falei de percursos musicais, hoje aproveito e falo de percursos auditivos. Mais tarde voltaremos à questão das bandas “boas” e “más”. Se o tom de hoje for um bocado professoral, há um motivo simples: quanto mais óbvio for o texto, mais probabilidades de ele ser compreendido por todos.

Toda a gente sabe que alguns estilos são mais dados à audição num alto volume e, para sermos honestos, hoje em dia essa prática é quase inescapável, desde o rock ao dubstep. Muitos dizem que não há necessidade para tal, e que ouvir mais baixo vai dar ao mesmo, mas essa ideia é falsa:

  1. Mais volume obriga o som a propagar-se mais num espaço e a reflectir em mais superfícies. Isso torna a fonte da música menos óbvia e, portanto, aumenta a envolvência no som;
  2. Mais volume realça o baixo e outros instrumentos particularmente graves, pois o nosso ouvido não é tão sensível a essas frequências e às vezes é difícil detectá-las;
  3. Mais volume cria, através dos dois factores anteriores, uma corporeidade específica – sentimos, da forma mais literal possível, a música no nosso corpo, a bater no nosso peito, a subir pelos nossos pés;
  4. Mais volume altera o próprio timbre dos instrumentos. Raramente ouvimos uma nota completamente pura: um Dó tocado por um piano ou por uma guitarra soa diferente porque cada nota musical é composta por diversas vibrações, umas de maior intensidade, outras de menor, e algumas dessas vibrações que moldam a nota possuem um volume tão baixo que não alteram grande coisa se a música não estiver alta.

Não estou, no entanto, a dizer para abusarem disso em casa ou em concertos. Quem me conhece sabe que não assisto a um concerto sem tampões nos ouvidos (tampões próprios para concertos custam habitualmente entre 5 e 30€, mas até algodão pode ajudar, embora em teoria o som se torne menos claro), e não é propriamente por achar que o som está “demasiado alto”. Mas o zumbido que por vezes ficamos a ouvir no fim de um concerto pode ser entendido como “acabámos de perder um pouco da nossa audição, para o resto da nossa vida, de uma forma que poderá ser irreversível”. Se não assistiria a um filme sabendo que me ia piorar a visão, não há motivos para fazer o equivalente com a música. Nenhum concerto vale isso.

Comecei a proteger os ouvidos depois de 3 concertos no espaço de poucos dias me terem deixado a ouvir esse “zumbido” (acufeno, tinnitus ou tinido, há vários termos) bem alto durante várias semanas a fio, tornando bastante difícil adormecer e bastante cansativo acordar ou trabalhar em “silêncio”. Eventualmente desapareceu, mas o susto foi grande. É possível esse som ficar cada vez mais alto e tornar-se definitivo, e também para isso não há cura, só prevenção. Pete Townshend, Lars Ulrich, Chris Martin e Noel Gallagher são músicos de backgrounds bem diferentes e todos se queixam do mesmo problema há anos. E não são propriamente pessoas que não consigam pagar os melhores tratamentos – estes simplesmente não existem. O mais que se pode fazer é passar a proteger os ouvidos ou abandonar a música, como Townshend chegou a ponderar fazer, para não piorar a situação.

Imagino que muita gente vá ignorar o aviso, mas mais vale isso do que sofrer consequências por falta de informação. E também não é uma coisa universal, senão não podíamos explicar bandas como Sunn O))) e Jucifer a dar concerto atrás de concerto num volume absurdo. Mas eles lá continuam.

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