Tema e Variações: Pré-Audições

No primeiro texto deste mês comentei muito brevemente que a gravação de música alterou profundamente a nossa relação com essa arte. Na Grécia Antiga, as 6 grandes artes eram divididas entre as visuais, baseadas no espaço, e as musicais, baseadas no tempo. Durante milénios, essas últimas (música, dança e poesia) estavam circunscritas a um único momento; era possível imitá-las, mas não copiá-las. A cultura oral foi sendo progressivamente substituída pela cultura escrita, antes e depois do surgimento da imprensa, mas a música continuou no seu antigo domínio. É certo que podemos escrever música em partituras, mas isso é mais ou menos como dizer que um livro de receitas contém as refeições que vamos comer: em ambos os casos, temos apenas um orientador para concretizar as ideias, e os resultados vão variar de pessoa para pessoa. A maior parte dos grandes maestros sonha conduzir as nove sinfonias de Beethoven para gravar “a” versão definitiva, ainda que as partituras sejam sempre as mesmas; o mesmo com os pianistas a tocar Chopin. Mas este fenómeno da gravação é recente e mudou completamente o mundo da música, permitindo ouvir várias vezes exactamente a mesma coisa, nota por nota.

Não vou tocar novamente no ponto da qualidade das gravações: é uma longa história, as conclusões não são claras, e há quem tenha aprofundado mais o tema; o que pretendo pôr em relevo é o facto de a gravação musical ter afectado, por um lado, os nossos hábitos de audição, mas também o próprio material que estamos a ouvir. Um exemplo comummente citado do segundo caso relaciona-se com a técnica dos violinistas. Em concerto, não haveria grandes problemas se uma nota estivesse só ligeiramente fora de tom; num disco, a falha fica lá para sempre e torna-se mais intrusiva a cada audição. Passando a usar mais vibrato, os violinistas não só escondiam essas falhas como facilitavam a captação das notas por parte dos microfones. Agora justificamos essa prática dizendo que os cantores também usam vibrato naturalmente, e que o “tremer” da nota torna o violino mais humano, mas isso é uma racionalização a posteriori, não consistente com a informação que temos acerca da abordagem a esse instrumento nos séculos anteriores.

Quanto aos hábitos de audição, será seguro dizer que descobrimos a maior parte das bandas através de gravações. Mesmo que nos digam “epá, ao fim da tarde está sempre ali na Baixa um saxofonista incrível, tens de ir ver aquilo”, é bem provável conseguirmos encontrar um vídeo qualquer no YouTube. Ao sair de casa já temos, assim, um ponto de referência, acontecendo o mesmo com música gravada em estúdio: vamos a um concerto ouvir música que já conhecemos. Depois, quando ouvimos bandas de virtuosos, podemos estranhar que ao vivo não consigam reproduzir os resultados presentes nos discos; ou, quando ouvimos bandas altamente emotivas, podemos sentir-nos enganados se os artistas parecerem frios e desinteressados no público e na música. Há pouco mais de cem anos não poderíamos fazer esse tipo de comparação, e a fama dos grandes compositores precedia a sua música, obrigando-nos a ir vê-los para os podermos ouvir. Um engano ou outro durante a interpretação seria desculpável, porque a experiência era única e era provável nem darmos conta. Esta necessidade de perfeccionismo na música gravada, porém, pode ser tão determinante que não é incomum fazer-se overdubs no som de DVDs de concertos ao vivo, substituindo algumas partes do concerto por novas gravações feitas em estúdio. Mesmo que aceitemos a prática de, num disco, cada música ser gravada um instrumento e uma passagem de cada vez, em vez de num único take, alterar o som de uma música ao vivo afigura-se, de alguma forma, menos honesto.

Até o papel do crítico musical foi alterado: para além de também escrever agora sobre discos, teve de modificar a sua abordagem à reportagem de um espectáculo. Já não interessa tanto a música por si mesma, mas sim o que tem a música de especial que justifique a ida a um concerto. Dificilmente dará a conhecer um artista novo, porque é quase certo que já existe música disponível na internet, mas pode defender porque é que um determinado artista, num estilo adoptado também por vários outros, se destaca ao vivo.

Pessoalmente, ainda me sinto repartido nesta questão. O facto de não conhecer bem bandas como Mastodon, Altar of Plagues ou Secret Chiefs 3 na altura em que as vi pela primeira vez sempre me fez sentir que não aproveitei o concerto ao máximo, mas foram boas experiências, sem dúvida. A estratégia nos últimos tempos tem sido procurar concertos de bandas que não conheço e só as ouvir pela primeira vez nos dias antes dos concertos. Fico com uma ideia do que esperar mas ainda não está tudo interiorizado, e é com o espectáculo ao vivo que o interesse pela banda se intensifica ou desvanece. No Sábado não consegui reconhecer nenhuma música tocada pelo duo Ken Vandermark & Paal Nilssen-Love e não sei bem até que ponto houve improvisação; mas sei, isso sim, que foi o melhor concerto que vi este ano.

 

PS: À medida que ia escrevendo sobre este tema recordei-me de dois artigos específicos. Acabo por repetir alguns dos argumentos que Alex Ross, autor de The Rest Is Noise, expõe num artigo para o New Yorker, mas António Pinho Vargas faz o mesmo aqui.

 

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