The years they passed and so did we: Scott Kelly

Maria Louceiro @ Passos Manuel, 2011

Faz sentido, especialmente a dias do seu regresso, que use esta rubrica e este espaço para recordar a noite de Março de 2011. Antes de mais, três anos passaram e é bom saber que o Scott está de regresso ao nosso cantinho.

A Amplificasom sempre sonhou com Neurosis, nunca o escondemos, e assim que nos apercebemos que a oportunidade de ter o Scott por cá era real, fizemos o nosso melhor.
Não foi óbvio: não conhecíamos o Scott, o seu agente, o Josh Graham (por quem fizemos tanto) por algum motivo não respondeu ao e-mail… O Steve Von Till, esse sim, foi impecável e reencaminhou o meu contacto ao responsável pelo agenciamento europeu e a 4 de Outubro de 2010 recebemos finalmente boas notícias.

Ao contrário deste ano em que vamos descer até à ZDB para uma co-produção com a casa, em 2011 fomos responsáveis por ambas as datas embora a promoção/ produção lisboeta tivesse ficado a cargo da Prime Artists – promotora com a qual tínhamos iniciado uma colaboração acidental basicamente um ano antes com os Isis. Esse(s) evento(s) foram um turning point para a Amplificasom, aprendi imenso com o Carlos Marreiros e hoje posso dizer que somos amigos e colaboramos com regularidade.

Poster para o concerto de Scott Kelly da autoria do André Coelho

Entre as reflexões essenciais para o sucesso do evento e as respectivas negociações, estas últimas não foram complicadas. Havia, de facto, vontade de passar por cá. A 9 de Dezembro de 2010, com o artwork do André Coelho – e reparem no antiguinho logo, anunciávamos então a estreia de um dos líderes dos Neurosis em Portugal. Vejam o tópico aqui no antiguinho blogspot. “Palavras para quê? A sério, palavras para quê?”, perguntava eu. O entusiasmo era óbvio, a paixão contagiante. Nada mudou, nada mudou.

Aqui, no Porto, a noite de 6 de Março desse ano foi realmente especial. Não me perguntem a setlist, mas várias coisas me lembro imediatamente: o silêncio que pairava na sala enquanto Scott se expunha daquela maneira; o aplauso que só surgia quando já não ouvíamos o último ressoar do último riff dessa canção; a ovação final de pé; o Scott emocionado, literalmente emocionado, quando vou ter com ele ao backstage e lhe digo que a malta quer trocar umas palavras e uns riscos nos discos que trouxeram de casa – “Já…vou…André…só…mais…uns…minutos…”.

Portugal gave us the 2 most well attended shows of this part of the tour and in fact the most respectful crowd I have ever played too (NYC it would have been you except for the cinder block guy).

Um dia depois do concerto, o Eduardo Costa escreveu no blog: “Concertos como o de ontem são a essência da Amplificasom. Público fiel, respeitador e que vem aos nossos concertos pela música e não por outra coisa qualquer. São estes momentos que nos deixam a todos orgulhosos.” Tão verdade… Mais uma vez, nada mudou.
Nunca seremos uma promotora popular, de massas e de esgotar grandes salas. Seremos sempre um agente cultural (mais do que a limitável promotora, prefiro esta expressão) a colaborar com as bandas e músicos cuja arte nos faz pensar, crescer, exorcizar até.

Lembro-me da sua chegada ao Passos. É a minha sala preferida para guardar esse tipo de memórias, eu explico: enquanto noutras salas estamos fechados no backstage, no Passos aguardamos no foyer. Como a vista é ampla, lembro-me de o ver a subir as escadas do Coliseu e caminhar em direcção a nós. Ou o Cisneros. O Efrim. O Dylan Carlson. Não o Brötzmann, fui buscá-lo ao aeroporto e fomos almoçar. Assim foi. Segue-se o Gira em Março e já o imagino com o seu chapéu de cowboy e, ai dele, com o novo Swans num cdr ou pen para que, invejem, o ouçamos durante a tarde.

O que descobri eu entretanto quando procurava alguns dados na caixa de correio? Que o primeiro Amplifest esteve planeado para 5 e 6 de Março de 2011. Acontecia uns meses mais tarde, todos sabemos. Curiosamente, Jesu estava lá, esteve sempre lá. Já regressavam, não?

Jorge Silva @ Passos Manuel, 2011


Voltando à noite de 6 de Março, custa-me a digerir que os Orthodox não sejam uma banda mais acarinhada entre nós. Talvez por não serem óbvios? Por se desafiarem com regularidade? Estrearam-se em Portugal no Out.Fest; trouxemo-los depois, em 2008, à Fábrica de Som; regressaram ao Porto para a primeira parte de Scott Kelly com um alinhamento mais jazzístico; voltaram no mesmo ano para o primeiro Amplifest de sempre já com uma postura mais pesada e… Sinceramente, o que está a faltar? Até dois discos pela Southern Lord editaram.. Adoro-os! Como banda e como pessoas. Espero que regressem em breve.

Lembro-me também deste roteiro que fiz ao André Balças, lembro-me que a melhor barba ganhava um bilhete duplo para o concerto do Arthur Doyle – chegaste a ir, Pedro Agra?

Quanto ao Scott, é uma pessoa afável e sensível. Não se preocupa com etiquetas e estatutos, é genuína a sua abordagem à música e só alguém genuíno consegue começar um disco com um cliché como “I love you like a flower loves the sun”. Sai-lhe do coração, nós agradecemos.

No fim, perante uma ovação de pé e já sem músicas no seu cancioneiro, o vocalista de Neurosis prostrou-se à postura do público e admitiu, emocionado, algo que no Passos Manuel não era óbvio: “foi a primeira vez que isto me aconteceu.

(…) o silêncio logo impera religiosamente na sala até ao último vestígio do último acorde, algo que agrada ao músico, que já tinha ficado muito satisfeito com a atitude do público portuense. “Vocês são tão diferentes da maioria dos locais onde eu toco”, elogiou Kelly.

O Ponto Alternativo esteve presente no Porto e em Lisboa.

Daqui a uma semana será pelo menos assim? Façamos destas duas belas noites. Juntos.

Até já!

The years they passed and so did we: Arthur Doyle

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