U2, ameaça zombie!

Verão de 2009, Coimbra. No início os sintomas começaram a manifestar-se em indivíduos sem aparente relação entre si. Comportamentos diferentes do habitual, misantropia, incapacidade de discurso coerente e, na maior parte dos casos, salivação compulsiva. Sem que ninguém pudesse prever, passaram a juntar-se grupos de dezenas, mais tarde centenas. Passadas poucas horas já havia grupos de milhares, aparentemente organizados de modo primitivo e hierarquizados num esquema bastante similar aos primeiros primatas. Violento e visceral. Os sons que emitiam eram dissonantes e imperceptíveis. Soavam a peles de chacal secas ao sol esticadas a serem raspadas com um diapasão afinado em ré.

Os grupos viviam nas ruas. Dormiam, comiam, defecavam, urinavam e copulavam despidos de qualquer preconceito social. Sujos, de olhar vazio e movimentos dengosos caminhavam lentamente de braços erguidos e punhos caídos murmurando o único som que se conseguia perceber: “bilhetes, bilhetes…”, numa sequência infinita e num murmurinho uníssono bastante similar a uma colmeia de abelhas africanas na altura dos equinócios.

Finalmente a praga acabou. Não havia mais bilhetes para os U2 e os contaminados tiveram que se começar a canibalizar dentro do próprio grupo, mandando às urtigas as suas recentemente criadas convenções. Mesmo depois de extinguida a grande crise dos bilhetes de 2009, indivíduos mais problemáticos mantiveram os sintomas.

A dona Piedade, do departamento de contabilidade, ainda não se curou. Tive que a amarrar a um velho servidor de Unix que mantenho para impressionar as miúdas. Mudo-lhe a água diariamente e a comida é servida duas vezes por dia num pratinho do Noddy que carinhosamente lavo semanalmente. Quinzenalmente é lavada com a ajuda de uma mangueira e untada com óleo de mangostão por causa das pulgas. Os cócós temos que varrer para um canto, porque senão seria preciso descer 7 andares para os colocar num caixote do lixo do exterior e temos mais que fazer. Na próxima segunda vamos poder libertar a senhora do cativeiro e comunicar o seu aparecimento inesperado na Polícia Judiciária.

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