V.I.T.R.I.O.L.

Tenho uns interesses algo peculiares, possuo um fascínio por personagens extremas como o Marquês de Sade e o Aleister Crowley. Entre os meus autores favoritos encontram-se um existencialista sueco dotado de uma sensibilidade extrema que pôs termo à própia vida aos 31 anos de idade e um americano que não o conseguia manter dentro das calças, passou anos refugiado em Paris e teve de esperar décadas para ver os seus livros publicados no seu próprio país. Durante anos interessei-me por paganismo e ocultismo. Sou um “weirdo”. E, no entanto, sou alguém completamente banal. As personagens extremas que me fascinam, os interesses que já tive são, ao fim e ao cabo, profundamente banais para o meio musical em que me inseria.
A percepção daquilo que somos, a nossa capacidade de chocar, muda consoante o meio em que nos inserimos e o contexto em que o fazemos. Uma coisa é a linguagem do meio social dominante, outra é a de uma franja, de uma sub ou contra cultura com referências e conceitos éticos próprios.
É assim: pode-se chocar algém por dizer que já se leu “A Bíblia Satânica” mas, para certos meios, isso quase que é requisito mínimo. Sendo assim, qual é a coragem, qual é a ousadia possível para com a “tribo”? O que há de estranho em ter cabelo comprido e vestir de preto quando, em certas circunstâncias, em certos momentos, todos à tua volta o fazem? Porquê a vontade da diferença para logo a seguir querer a identificação com algo, com alguém? O que nos leva a querer romper com uma determinada norma e reivindicar liberdade de certas morais para, em seguida, aderir a uma outra norma e a novas morais que também nos cercearão a liberdade e que resultarão em críticas caso as infrinjamos? Que belo desespero o nosso, tão “pronto-a-usar” por qualquer tarado religioso que nos prometa a Lua, ou, ao ser destronado o tarado religioso, tão “pronto-a-usar” por uma qualquer ilusão de um mundo melhor onde estaremos livres do ópio do povo, desde que sigamos a opinião do nosso grande timoneiro, claro está.
Quanto muda a linguagem quando se fala para a “cena”, a “tribo”, e quando se fala para o vulgo! E, no entanto, a “tribo” torna-se vulgo quando se está demasiado inserido nela. Qual o valor das opiniões que se ouvem, qual o significado das decisões que se tomam, quando só se procura ouvir aqueles que anuem connosco?
O que é realmente ser-se “outsider” quando se procura uma irmandade de “outsiders”? O que é isso de se viver “à margem” e esperar a integração nalgum lado?
É como aquela questão: quando o alternativo é mainstream, então o que é alternativo?
E reparem, tudo isto pode ser entendido como uma metáfora, os exemplos que dou podem perfeitamente ser extrapolados para outros meios, outras situações. E, além disso e acima de tudo , porque raio é que estou eu aqui, um caramelo que pode tão facilmente ser considerado um cliché, que se veste de preto, tem cabelo comprido e ouve metal e se interessa por coisas sombrias, sim, ao fim e ao cabo, porque é que estou eu aqui a colocar estas questões? Bem, eu sou um daqueles tipinhos irritantes que colocam questões! Pior, eu sou um daqueles tipinhos irritantes que colocam questões e, ainda por cima, têm a mania de ser sarcásticos! Não, não vou poupar o trabalho a ninguém e dar também as respostas, assim já não seria um tipinho irritante! As pessoas adoram quem lhes dá as respostas e desatinam com quem só levanta questões. Eu acho que há uma falta de “questionamento”, ou até de pensamento. Ao longo dos anos fui ouvindo alarvidades do género “não lhe pago para pensar” (lamento muito, mas é indissociável de mim), ou “as pessoas que só levantam questões não prestam, o que é preciso é gente que faça as coisas” (pois, e fazer sem pensar é uma maravilha). Enfim, tudo situações que revelam o nobre espírito deste grandioso povo. “…Levantai hoje de novo o esplendor do curral.”
Sou um gajo com uns gostos peculiares. Sou um gajo banal, toda a gente tem gostos peculiares! Estamos todos centrados no nosso mundo a julgar que somos especiais (olha que umbigo tão giro!), que somos flocos de neve. É aliás esse o terreno fértil onde prosperam uma data de religiões – na promessa de que somos especiais e há algo eterno reservado para nós, porque obviamente somos demasiado importantes para morrermos e pronto. E, no entanto, na nossa inflaccionada individualidade, quão rapidamente corremos para a glória do número, para o conforto do rebanho. “Vamos ganhar o jogo!” (pois, és mesmo tu que estás em campo a ganhar aquela barbaridade de dinheiro!); “fomos perseguidos durante séculos!” (a sério que és assim tão velho?!); “yes, we can” (mas vais-te esquecer de mim quando chegar a hora, não vais?)…
Quanto ao título (mas que raio é aquilo?!): googlem lá isso, ok?…(arrogante do cara***, não podia dizer?!)

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