What is Rock?

Estava hoje a ouvir isto quando constatei que, não obstante todas as razões que levam à impopularidade a que os Turbonegro estão votados – nomeadamente o seu aspecto e conteúdos líricos mais galhofeiros – sucede eles colocarem efectivamente uma pergunta válida, e, a meu ver, importante, à qual dão a sua particular resposta.

Remontemos, se não se importam, a alguns anos atrás, ao começo da minha adolescência, e seja-me permitido falar muitas vezes em meu nome pessoal. Este Eu, justamente acusado de impertinência em muitos casos, implica contudo aqui uma modéstia que me insere dentro dos limites mais estritos da sinceridade (a pôr à prova dentro de momentos).
Então, há cerca de 14 anos atrás, houve uma grande excitação em minha casa. Um CD que, sem darmos por isso, tinha vivido muito tempo entre as prateleiras de seus semelhantes na loja de música que havia dentro do Continente de Matosinhos tinha, como que por milagre, encontrado o seu caminho para as minhas intrigadas mãos. Talvez fosse a tipografia empregue no seu frontespício, talvez fosse a simplicidade negra do design, mas o certo é que AC/DC parecia-me um nome intrigante para uma banda, e, por isso, pedi à minha renitente mãe para o juntar ao carrinho de compras.
Quando cheguei a casa coloquei o dito a tocar e quando se ouviram os primeiros acordes da Back in Black, a pouco e pouco formou-se dentro de mim uma aparição estranha que se fez corpo, figura. Esta aparição definiu-se por: 1) um acaloramento geral, 2) uma verbalização de “Mas o que é isto???”, e 3) uma prodigiosa erecção.
Mais do que a nefasta entumescência e os aumentos de volume que se verificaram a cada posterior audição da supre-citada obra musical (e subsequente caos caseiro), tinha presenciado um novo Deus, a guitarra eléctrica a destilar puro rock, rock badalhoco, rock simples e eficaz que não era em nada os Beatles dos vinis que tinha. O Manel Cruz descobriu que o Amor dá-lhe tesão, eu tinha descoberto que, a mim, era o rock.
Não se riam, a ninguém custará confessar tudo isto, com excepção daqueles para quem a música não é uma volúpia.
Indagando então acerca destes efeitos fisiológicos e no que constitui efectivamente uma banda que se diga de rock, elaborei os seguintes axiomas que, atenção, não pretendem de todo ser leis finitas…apenas food for thought.

Observação I – O efeito

O rock pode comparar-se às musicas de transe que só atingem o seu verdadeiro significado na realização de uma forma precisa. O rock aspira a colocar o ouvinte num estado específico em que o corpo passa a desempenhar um papel essencial. É o corpo que afinal produz a música, a recebe e lhe responde; é o corpo que liga os sons, a dança, a moda e o estilo ao encontro inconsciente da sexualidade e do erotismo.
É a faculdade que uma banda tem de gerar uma resposta corporal que o faz classificar-se como rock (isto não implica, contudo, que uma escuta distante e unicamente intelectual, não seja conveniente e não nos informe sobre esta música alguns dos seus aspectos).

Observação II – Quebra com a cultura

O rock é uma musica de rebelião, mais precisamente de rebelião adolescente: da mesma forma que, no caso dos gregos, estavam sobre o signo de Ártemis aqueles que não tinham o seu lugar na comunidade e pertenciam portanto ao mundo selvagem, em desordem, que se situava fora dos muros da cidade; da mesma forma que o Walgänger de Ernst Jünger e Odin da mitologia nórdica recorriam às florestas para encontrar um espaço onde pudessem dizer “Não”, e assim adquirir um verdadeiro estatuto de rebelde; da mesma forma que um encontra na musica que ouve o espaco onde pode dizer “Eu não sou um dos vossos”. O rock apodera-se deste dito e dá-lhe uma existência musical (as letras em si não são fundamentais, o que conta é a arrogância, a provocação de que o próprio intérprete se torna o suporte). Esta rebelião, informulada ou formulada, não é outra coisa senão a aceitação, mesmo a reinvindicação de valores condenados pela sociedade: os excessos de todo o tipo.

Observação III – Forma e Feeling

Tomando em si próprio as formas do blues, portadoras em si próprias de excitação e mesmo de violência subjacente, completou-as de certa forma, assumindo o que elas diziam implicitamente. São frases de desprezo, com uma violência implícita, que acentuam não o objecto, ou seja, os destinatários da canção, mas o próprio desprezo, como uma mensagem de rebelião pura. É obsceno. Musicalmente revela-se precisamente pelo que parece excessivo ou aparentemente incontrolado: tensão nas vozes, urgência no canto, violência dentro e fora do palco, representada e vivida, e, por fim, transformação das funções instrumentais. O ritmo já não serve apenas para dançar, mas, despojando-se, visa suster e acentuar a carga e tensão emocional, a guitarra deixa o seu estatuto ritmo-melódico, serve para relançar constantemente a excitação, assume a agressividade, toca com distorção e com volume sonoro para levar o trecho ao êxtase. Catarse.
Um executante de música “clássica” é obrigado a dominar completamente o seu instrumento. No rock não é assim. O importante é ter técnica suficiente para entregar a sua própria mensagem. Claro que existem virtuosos. Mas nunca podemos desclassificar alguém que, apesar de ter uma técnica rude, possui, no entanto, dentro do que pratica, uma linguagem própria.
Não há um único amador que possa soar como Muddy Waters, mas isso não impede que as bases sejam facilmente assimiladas e que cada um esteja entregue à sua própria criatividade e aos limites que ela impõe, em vez de consagrar anos às ratoeiras e armadilhas da técnica – muitas vezes musicos que tentaram cativar o publico com uma grande orquestra ou aspiraram subir ao plano do virtuosismo não provaram nada mais que o desconhecimento do rock ou a sua cegueira.

Observação IV – Credibilidade

Será que a vida de um intérprete, o seu estatuto na “cena”, deve ser levado em conta na apreciação que fazemos da sua música?
O rock retirou muito do seu poder de fascínio pelo facto de ser uma “arte de rua”; transcrevo de The Electric Kool-Aid Acid Test:

“It once and for all put Kesey and the Pranksters up above the category of just another weirdo intellectual group. They had broken through the worst hangup that intellectuals know–the real-life hangup. Intellectuals were always hung up with the feeling that they weren’t coming to grips with real life. Real life belonged to all those funky spades and prize fighters and bullfighters and dock workers and grape pickers and wetbacks

Um verdadeiro intérprete rock tem de facilmente habitar uma forma ou um texto, de substituir a falta de credibilidade por uma tensão suplementar, nascida justamente da fé e sinceridade com as quais aborda uma canção. É por uma vontade de servir uma forma que lhe é a priori estranha, mas na qual se reconhece, que o artista se deve apropriar das palavras. Trata-se assim de assumir plenamente um grau que tantos outros evitam cuidadosamente através da paródia, da ironia, acentuando o virtuosismo. Esta deslocação de intenção é feita em detrimento da incarnação.
No entanto, a lacuna nunca preenchida entre o texto e a credibilidade que ele pressupõe, e a tentativa de a assumir plenamente apesar de tudo, torna emblemático e universal tudo o que a canção possui (urgência, violência, sofrimento…). Portanto a credibilidade tanto pode reforçar a anedota até um grau supremo e arrepiamo-nos com a palhaçada com que nos ultrapassa, ou a incarnação faz deslocar o interesse da anedota para o desejo e arrepiamo-nos com aquilo que afinal está próximo.

Observação V – Vivência

Tocar/ouvir rock toma por vezes o aspecto de uma “acção de graças”. Isto leva-nos a falar do tempo profano e do tempo sagrado. O tempo profano é o de sempre, aquele em que passado, presente e futuro estão bem distintos. Quanto ao tempo sagrado, abole presente e futuro a favor de um passado revivido. É o tempo das celebrações religiosas: uma eucaristia, uma actualização da cena revivida, no sentido forte do termo, pelos fiéis. Não uma comemoração, mas sim a presença de uma temporalidade bem definida: os gestos e as palavras do celebrante recriam literalmente o instante passado.
Ser implica uma iluminação original, um momento em que o ouvinte reconheceu na música uma forma sonhada, um instante fundamental. Pouco importa se foi a ouvir radio, ver televisão ou alguém a pulverizar uma guitarra à nossa frente num concerto. O que interessa é que tal momento tenha existido, que tenha havido subversão, um nascimento de outra consciência, uma passagem pelo “mundo das florestas” a que me referi na Obs II. É impossivel não ver então que um concerto pertence, nos seus melhores momentos, ao tempo sagrado. Efectivamente, serão estes os instantes em que o fantasma da audição gravada coincidirá por fim com a realidade, compreendendo o espectador intuitivamente que o artista revela então tudo o que tem em comum com ele.

Comentários

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  1. Scometa

    Adenda: O profano, etimologicamente, remete-nos para "o que está fora do templo". Ou seja, o mundo e tudo aquilo que dele ocorre. Pode efectivamente falar-se num caso de extemporaneidade. O sagrado, contudo, exuma o conceito heraclitiano, no sentido em que o todo não é um retorno, mas um momento de elevação espiritual, um ritual do tempo presente, onde tudo é como sempre foi. Uma afirmação do hoje vivido no homem e não fora dele. Aprendi isto com o último episódio do Fringe

  2. Rodolfo

    e, sobre a questão da "elevação" é sempre bom notar o papel do pontífice (pontifex – o que faz a ponte) como mediador das realidades profanas e sagradas.

    na perspectiva do mafarrico, o artista rock será o pontifex desta situação, na medida em que é este que desperta nos demais a tal "elevação" que o separa – ainda que momentaneamente – da realidade profana.

    gotta love music :)

  3. ::Andre::

    Sempre que encontro textos longos na net que me interessam ler acabo por imprimi-los. Eu acho que este é o primeiro post aqui no tasco que me vai obrigar a algo do género.

    Ps: Descansem ecologistas, folhas de rascunho.