Dal beat al progressivo

Na semana passada, introduzi-vos a um tema especial que me é bastante íntimo por circunstâncias da vida. Passados três meses em Itália, o meu entusiasmo pela cultura musical deste país concentrou toda a minha atenção, à medida que abandonava a zona de conforto do previamente apreendido e me surpreendia com os mais ínfimos recônditos da vertigem cultural, em quase cinco década de história fonográfica. Com a lição dos Daft Punk podemos concluir que a maior parte das referências quotidianas que vimos promulgadas pelas centrais económicas da indústria, podem sempre partir de fontes inesperadas. Com a magnífica geração de compositores cinéfilos, celebramos um filão bem mais actual do que o expectável, recuperado e reciclado por personagens que vemos hoje como nucleares para Hollywood. Esta semana e com a promessa de um regresso coerente e harmonioso, lanço a leitura de uma geração fértil e determinante para a compreensão desta incontornável nação do sul da Europa, na década em que se encontrava. O rock progressivo italiano, vide a mescla secular da norma musical interna em junção com o badalado rock inglês de cátedra. Uma diáspora essencial para se compreender a década progressiva de setenta na península itálica de dentro para fora:

II – O lado “p” do rock italiano

No final dos anos sessenta, Itália vivia uma série de convulsões sociais pós-fascistas que eclodiram em violentos atentados perpetrados por grupos radicais de esquerda. Depois de ressurgir da catástrofe nacional da segunda grande guerra com a ajuda do Plano Marshall, a economia italiana desabou novamente com a crise do petróleo de 73, gerando novos conflitos internos e massacres terroristas realizados por grupos extremistas opostos ao centro-direita, com o envolvimento maior das Brigadas Vermelhas. Durante estes agitados “Anos de Chumbo”, como ficou conhecido o período dominado por partidos políticos de esquerda entre as décadas de 60 e 80, muitos escolheram a música para expressar sua revolta contra o status quo. A mudança que era imperiosamente reclamada por uma faixa etária juvenil começou a partir das universidades e meios intelectuais, atingindo a inspiração de compositores populares e estudantes de conservatório para uma nova era de modernidade. Os comícios ideológicos eram palco para estas bandas que deliberada ou ocasionalmente, eram remetidos para a esfera política à volta destes festivais improvisados. O rock foi absorvendo a cultura do país e tornou-se, a exemplo de uma história reescrita, a voz de protesto e descontentamento não só pelo sistema instalado de velhos costumes como por uma seara musical obsoleta e ultrapassada. No período anterior a ess época quente, apenas algumas amostras importadas da geração beat inglesa foram recriadas no país transalpino, como os Trolls (i trolls) que se viriam converter nos renovados New Trolls integrados numa nova cena que adviria.

Tudo partiu da realidade incutida pela “invasão britânica” e essencialmente pelas bandas de rock progressivo inglês que começaram a desafiar fronteiras. Bandas como King Crimson, Yes, Emerson Lake & Palmer, a cena de Canterbury, Van der Graaf Generator, Gentle Giant e, principalmente, os Pink Floyd tiveram um impacto brutal na interpretação italiana desse rock contemporâneo, dando-se uma “gentrificação” musical da fórmula em vigor. É necessário salientar que esta aculturação não se comunicou de forma literal e decalcada. O rock progressivo italiano (RPI) foi um cocktail explosivo de influências que se dividiram entre a fonte (ópera, clássica, barroco, canção napolitana) e o curso (pop, rock, jazz, etc), desaguando num conjunto de revelações díspares, peculiares e radicalmente novas. Mais do que uma influência directa, o rock progressivo Inglês foi, para os grupos italianos, um impulso para desenvolver as suas próprias ideias e um som particular.

Como nos explica o meu camarada italiano, Alberto Campo, jornalista musical do La Repubblica: «No início dos anos setenta, em proporção, a onda do rock progressivo britânico teve mais efeito em Itália do que na própria casa. Ambos são originários de uma grande variedade de seguidores locais, cujos registos são até hoje objecto de veneração por coleccionadores: bandas obscuras e inferiores como “La Locanda delle Fate” ou “Garybaldi”. Outros grupos, no entanto, foram bem-sucedidos: antes de mais, os “Premiata Forneria Marconi” (eventualmente capazes de exportar a sua música para o exterior), mas também o “Banco del Mutuo Soccorso” e “Le Orme”, enquanto num caso à parte são representados os “Area” de Demetrio Stratos, próximos das fronteiras do jazz avant-garde da época. Uma interpretação possível desse fenómeno atribui-se à ampla difusão em Itália daquele modo impetuoso de tocar rock perante a persistente tradição clássica e operática, bem mais enraizada e popular do que em outros países europeus. Um curto-circuito que gerou experiências bastante interessantes, mas também monstruosidades embaraçosas.
De facto, corria a informação de que certas “bandas de sua majestade” tocavam mais em Itália e preenchiam tours lotadas pela “bota”, a um nível incompreensível no seu próprio país. O mítico “Pawn Hearts” dos Van Der Graaf Generator, por exemplo, foi líder de vendas durante semanas na península itálica. Tudo isto contaminou várias cidades como Roma, Milão, Florença, Veneza substituindo os comizi por verdadeiros festivais de Verão e concursos de bandas.

É nesta perspectiva que se passam a pente fino os trabalho italianos desta época. No limite da navalha, exagerados e, por vezes, grandiosos. Dentro da santíssima trindade dos Premiata Forneria Marconi, Banco del Mutuo Soccorso e L’Orme, o tsunami começou a crescer exponencialmente dando lugar a filhos directos, bastardos e adoptados. Tudo se criou a partir da trave mestre dessa época, o que resultou numa incrível liberdade de execução, criação e numa desorganização catalogável. Por outro lado, a linhagem barroca de Corelli, Scarlatti e Vivaldi, sempre se intrometeu na álgebra criativa do RPI de mãos dadas com uma fusão entre vários estilos, dentro de uma roupagem rock. Era a linguagem mundificada, intelectual e inclusiva, o rock em meados de setenta. Porém, musicalmente, nacionalista. Essa “impressão digital” está bem patente nas vocalizações e letras integralmente compostas em italiano, numa clara adopção do estilo subjugado à língua. Ao contrário dos desenvolvimentos post punk e electrónicos da década de oitenta, o abecedário latina imperava dentro do universo anglo-saxónico. Mas também no ecletismo e na quase absoluta liberdade em vaguear criativamente, pela importância vital e emocional que a música transmite no carácter, identidade e temperamento de um italiano. Na pesquisa para este trabalho, li uma passagem deliciosa que explicava como em outros países, a clássica é encarada de forma elitista enquanto em Itália, é uma memória viva, uma herança histórica. Circunstância que alterou o paradigma de convivência com este tipo de arte. Poucos foram os que se renderam à completa acepção anglófona, salvo raros casos de exportação musical e ambições fora de portas transalpinas.

A instrumentação é também ela barroca e erudita oriunda no uso de referências à rica e diversificada historiografia musical italiana. Variadíssimos instrumentos como flautas, violinos, violoncelos, guitarra clássica eram articulados com instrumentos mais típicos como o mandoloncello ou o clavicembalo. Cruzamentos dominados pela omnipresença das teclas. Além do mellotron, do hammond, do moog, o piano e o órgão também eram empregues ao serviço da criatividade dos músicos, muitos deles multi-instrumentistas.
Fernando Bueno, jornalista brasileiro, tem uma abordagem curiosa a este dado. Diz ele que “ao contrário dos YES que tocavam rock à moda da música clássica, em Itália, foi o rock que influenciou o clássico e não o contrário”. Neste campo, as deambulações de bandas como Le Orme (a primeira que ouvi, há bastante tempo atrás), L’Uovo di Colombo, Alusa Fallax ou Il Paese dei Balocchi suscitavam combinações instrumentais heterodoxas, semi-acústicas, reminiscências de música de câmara alemã do pós-romantismo. Neste particular, o arranjador italo-argentino Luis Bacalov foi a pedra-chave na produção de algumas pérolas como “Preludio Tema Variazioni Canzona” de Osanna, a fase renascida dos New Trolls ou o celebérrimo “Contaminazione” de Il Rovescio della Medaglia, pela sua revelação neoclássica debaixo da alçada de Bach, Beethoven ou Brahms.

Outro aspecto muito importante de género vem do jazz, mas principalmente do jazz-rock e do jazz-fusion, forjado por John Coltrane, Miles Davis e Joe Zawinul, já para não mencionar o baixo revolucionário de Jaco Pastorius. Somam-se a estes nomes os dos músicos Chick Corea, Herbie Hancock, e bandas como Weather Report, Return to Forever, Mahavishnu Orchestra e Passport, entre outros. Em Itália, foram muitas as bandas do movimento que se dedicaram a estes rendilhados, como os Agorà de Ancona com o solitário “Agorà 2” de 76 ou os turineses Arti e Mestieri encabeçados pela extasiante bateria de Furio Chirico no sublime “Tilt” de 74. Temos também as obras-primas dos Aria, “Arbeit Macht Frei”, “Caution Radiaton Area” e “Crac!”, testemunhos político-musicais que fundiam a música étnica e o experimentalismo ao jazz prog e o homónimo trabalho solitário dos milaneses Maxophone de 76 que namoravam o jazz com o rock sinfónico.

Associados a uma vertente mais pesada com guitarras cortantes e hammonds atmosféricos, temos os lígures Museo Rosenbach com o único disco de originais “Zarathustra“, sorvido pela obra de Nietzsche. Acusados de envolvimento com o fascismo devido à presença de Mussolini na capa do álbum e pelo fascínio do “super-homem”, desapareceram misteriosamente com medo de retaliações da extrema-esquerda. Outro dos mais tenebrosos foi Antonio Bartoccetti e os seus Jacula. Fundando posteriormente Dietro Noi Deserto, Invisible Force e os fantásticos Antonius Rex, Bartoccetti foi uma das figuras mais carismáticas da cena musical progressiva italiana, reconhecido pelo secretismo dos seus concertos e pela apetência pululante por novas editoras. Outro dos grandes grupos representativos do RPI foram os napolitanos Osanna, pioneiros nas exibições ao vivo com maquilhagem e figurinos, expedidos pelo universo da comédia grega e pela teatralidade da tradição mediterrânica. “Palepoli” o terceiro álbum é a obra maior da assunção deste grupo. A música de abertura, “Oro caldo”, unifica o típico estilo espalhafatoso do grupo com cantos tradicionais da Campania, enquanto “Stanza Città ed Animale Senza Respiro”, que ocupa a segunda faixa inteira, dá mais espaço à habilidade instrumental dos músicos.
Os piemonteses Locanda delle Fate foram, talvez, a banda mais injustamente esquecida desta fornada geracional. Um dos melhores exemplares sinfónicos do estilo e para muitos, responsáveis pelo grande disco do RPI. “Forse le Lucciole non Si Amano Piu”, é um portento tardio e de bom gosto. Infelizmente os Locanda surgiram no fim do movimento progressivo italiano, em 1977, pois certamente teriam obtido mais êxito caso tivessem despontado anteriormente. De verdadeira referência clássica, como acima tentei descrever, o disco é um bom cruzamento entre teclados, atmosferas idílicas e excelentes expressões vocais.
Dentro do compartimento de álbuns obscuros que serviram de testemunho singular para a actividade das respectivas bandas, podemos salientar Buon Vecchio Charlie editado em 1990 pela editora japonesa Melos que o descobriu na gaveta da banda quando ninguém a quis contratar, Biglietto Per L’Inferno de 74, um hard progressivo potentíssimo com dois teclistas ou Campo di Marte de Enrico Rosa que se tornou figura de culto entre os colecionadores pelos padrões contrastantes ao cânone geral, sem vocais com ênfase nas guitarras e pelos arranjos acústicos. Na pegada do progressivo sinfónico de final da década, bandas como Cervello, Il Balletto di Bronzo, Semiramis ou Corte dei Miracoli tentaram manter acesa a chama do estilo com um prog mais pop e massificado. E muitas, muitas mais ao vosso alcance, hoje em dia.

Para terminar, não poderia deixar de mencionar o mestre Franco Battiato. Cantor, compositor, maestro, pintor e escritor italiano, o decano siciliano enveredou pelo romantismo, experimentalismo, ópera e contemporânea, música étnica, pop electrónica e, claro está, o rock progressivo. Foi talvez o artista italiano mais na vanguarda do seu tempo e conseguiu reinventar-se com o seu impressionante camuflado musical, oferecendo a esse domínio três discos de incrível audição experimental prog – “Fetus”, “Pollution” e “Sulle Corde di Aries” – antes de abraçar de vez os sintetizadores com “Clic” em 1974. Um cozinheiro de estilos. Um libertino profissional.

A cena progressiva italiana, uma das mais produtivas da Europa na primeira metade dos anos 70 acabou, incontornavelmente, por se aniquilar autofagicamente pelo fluxo de produção e atenção desmesurada. Estávamos a falar de uma época em que a fita magnética era uma utopia e em que o único formato era o disco em vinil e a plataforma, a rádio. A competição acabou por ser mediada pela atenção do mercado e a popularidade desvaneceu-se pela proliferação de trabalhos. Popularidade, essa, que chegou ao oriente japonês, ao México e aos Estados Unidos, para além de ter inspirado dezenas de músicos do continente europeu. Em todo o caso, resquícios do neoprogressivo continuaram a assolar o mercado nos anos oitenta, empolgados pelos sucesso dos ingleses Marillion, com bandas emergentes que tentavam renovar um passado de sucesso mas sem o brilho dos antecedentes.
Bons livros sobre este excêntrico movimento podem ser encontrados na Internet, com destaque para “Il ritorno del pop italiano. Dal 1970 al 2000” de Paolo Barotto e os dois volumes do “Rock progressivo italiano” de Francisco Mirenzi.
Ao editarem “Florian” em 1979, os Le Orme preparavam-se para solidificar o sinfónico mas os anos oitenta já estavam na calha de algo diferente. E ao dobrar a esquina dessa década, o que nos esperava Itália nos anni ottanta?


(Termina na próxima semana)

Manuel A. Fernandes escreve de acordo com a antiga ortografia.

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