Tema e Variações: 2 Mil Anos Depois Entre Afrodite e Ares

That's just, like, your opinion, man.

Esta rubrica está quase a terminar e ainda não ataquei um tópico que está subentendido em tantas discussões: a música é arte ou entretenimento? Aceitamos que possa ser as duas coisas, embora se repita exaustivamente que “gostos não se discutem”. Se um portista e um benfiquista podem discutir a qualidade de jogadores de ambas as equipas, também podemos propor uma abordagem mais analítica à música. Não é por sabermos como foi filmada uma cena que um filme deixa de ser absorvente, e não é por pensarmos acerca de música que a sua magia se desvanece.

Tendo em conta o modo como a música nos pode emocionar, um ataque a algo que estimamos pode ser sentido praticamente como uma ofensa pessoal. Mas não será isso um pouco irracional? Seremos arrogantes ao ponto de pensar que a única música de que gostamos é “boa” música? O problema, muitas vezes, é sermos críticos sem sabermos fazer uma crítica. Dizemos que um álbum de uma banda é melhor do que outro porque gostamos mais de o ouvir, e isso, muitas vezes, chega-nos. Não é preciso pensar muito para perceber que estamos, no máximo, a avaliar a nossa resposta emocional, e não a música que a despoleta.

Ainda que as discussões acerca do que é ou não arte remontem, no mínimo, à Grécia Antiga, encaramos geralmente a música como uma criação artística. No entanto, muito do que ouvimos hoje em dia não passa de um passatempo ou de ruído de fundo (música nos elevadores, na sala de espera, em autocarros, no trabalho…). Com bastantes reservas, podemos dizer que a música como entretenimento concentra-se no presente, e a música enquanto arte tem mais consequências para o futuro. A música numa discoteca tem o intuito de pôr as pessoas a mexer, de anular a passagem do tempo e proporcionar um bom momento; um artista mais vanguardista preocupa-se em criar algo diferente de tudo o resto, mostrar uma visão única, apresentar algo que nos faça pensar e que deixe marcas. Gosto de pensar na música dessa forma porque não são categorias mutuamente exclusivas: a música da Madonna ou da Lady Gaga requer bastante talento para ser criada, e a música pop no geral, para não fugir às “fórmulas de sucesso”, tem de se preocupar em apresentar variedade em pequeníssimos detalhes; além disso, géneros que alterem o estado emocional de uma pessoa podem provar-se úteis para o futuro imediato, tornando-nos mais produtivos e fazendo-nos aproveitar melhor o dia, por exemplo. Do mesmo modo, uma banda mais complexa a nível musical ou lírico (Meshuggah e Neurosis, entre tantas outras), que podemos ter prazer em analisar, pode também servir de companhia numa viagem, sem exigirem sequer muita atenção. Com isto em mente teríamos um bom ponto de partida para qualquer debate aparentemente absurdo, como, digamos, “Lady Gaga é melhor do que Meshuggah”. Nem é preciso ir tão longe – não adoro o Pain Is Beauty da Chelsea Wolfe porque tem algumas músicas que me soam completamente banais em géneros que não me dizem muito; ao mesmo tempo, parece-me um disco importante porque reflecte a procura por novos caminhos em vez de se agarrar a uma fórmula que possa repetir até à exaustão. O Apokalypsis entretém-me mais, sem dúvida, mas teria de pensar um bocado antes de dizer que é um trabalho artístico superior. De qualquer forma, procurando distinguir a arte e o entretenimento, as opiniões ficam mais claras.

Peguemos agora nos Amenra, que hoje é um bom dia para isso. Alguém dizer que não gosta da banda porque a voz do Colin é completamente ridícula é uma posição legítima – não apresenta grande variedade, o timbre não é muito agradável, a despreocupação pela afinação causa dissonância a mais. Igualmente legítimo é outro ouvinte ultrapassar isso tudo e separar os Amenra entre instrumentos e voz: as cordas e a bateria a criar um mundo devastador, e a voz, frágil, vulnerável, sempre prestes a falhar, tenta erguer-se uma e outra vez e furar essa parede sonora. A banda pode ser vista metaforicamente como uma prova de resiliência. Se o primeiro ouvinte não souber falar das noções harmónicas e melódicas que instintivamente compreende, e se o segundo não souber traduzir por palavras a sua interpretação da banda, uma discussão entre os dois seria bastante inútil. Quanto a nós, se aprendermos a escutar o colectivo belga como este hipotético segundo ouvinte, podemos perfeitamente valorizar artisticamente o trabalho dos Amenra sem que isso nos impeça de estarmos logo à noite no Hard Club para nos deixarmos entreter.

 

AMENHÃ: o regresso

Jorge Silva, Amplifest 2012

“Para eles, não há concertos. Há rituais. Como revelado pelo vocalista Colin H. van Eeckhout, em entrevista ao Ponto Alternativo, os Amenra não gostam particularmente de tocar ao vivo. A razão não é de difícil absorção: para os belgas, o palco é local de expurgação, onde corpo e alma se submetem a um sacrifício transcrito em alguns dos melhores trabalhos de guitarra e atmosferas que o post-metal já deu a conhecer.

Maria Louceiro, Amplifest 2012

Ao contrário de outras bandas do género, os Amenra provêm de uma escola que lhes proporcionou os seus principais atributos – o hardcore. É dessa inspiração, principalmente da corrente metálica à Integrity, que nasceu o som dos homens de Kortrijk e isso fica plenamente edificado em toda a imponência que colocam em concerto, onde van Eeckhout nem sequer precisa de fitar a plateia para se consagrar como um dos mais altivos vultos de todo o festival.

Cláudia Andrade, Amplifest 2012

No filme Hellraiser III, Pinhead diz que no núcleo da Terra há uma música secreta e que ela soa como lâminas a dilacerarem a carne. Se tal for verdade, provavelmente esse tema será da autoria dos Amenra e não deverá andar longe daquilo que o quinteto consegue asfixiantemente tecer em Razoreater, De Dodenakker ou Am Kreuz, temas fielmente interpretados ao vivo e catapultados por projecções que só sublinham que os belgas são também doutos na arte visual, regida pela sua própria concepção apadrinhada de Church of Ra.

Cláudia Andrade, Amplifest 2012

Pelo meio, houve Dearborn and Buried (malha de Mass V, disco ser lançado dentro de um mês), onde se pôde finalmente ouvir Eeckhout em toda a sua raiva e tormento e não tão sonoramente sufocado pela vastidão que são as guitarras de Vandekerckhove e Lennart Bossu.

Cláudia Andrade, Amplifest 2012

Se há um filho pródigo daquilo que os Neurosis edificaram nos anos noventa, então os Amenra sê-lo-ão certamente e a sua muralha sonora ainda hoje perdurará nos pescoços daqueles que se balançaram ao sabor do seu excruciante concerto.”

Cláudia Andrade, Amplifest 2012


Fotos dos nossos colaboradores Cláudia Andrade, Jorge Silva e Maria Louceiro; palavras do Ponto Alternativo. Os AMENRA regressam amanhã ao Porto. A contar os minutos…

Church of Ra: horários

Bilheteira/ Portas da Sala 2
20:00
Hessian
20:30 – 20:50
Oathbreaker
21:05 – 21:50
Treha Sektori
22:05 – 22:30
Amenra
22:50 – 23:50

Nota: o alinhamento e tempo de actuação foram escolhidos pelos responsáveis das bandas em concordância com a Amplificasom.

“This is probably the slowest, heaviest and intrinsic album to date. During about 40 minutes, our emotions are swept and swallowed in this maelstrom of feelings that is “Mass V”. With this fabulous album the Belgian band puts another glorious milestone in their career. A brilliant album that leaves us completely hooked and begging for more. If you are still blind, hear Mass V and witness with your own eyes one of the most magnificent albums of the year.”

Jorge Silva @ Amplifest 2012


Making their live shows an unforgettable experience, both sonic and visual, to those to witness such performance. Everything this band makes, they put in their blood, sweat and tears into. Everything is thought to the smallest detail: every word, every image, every sound. Everyone i know that has seen AMENRA live, always tell me about how it was the best live experience of their lives coming out from a band. It goes beyond the skin, beyond the flesh, deep into the soul. No wonder their live performances are known as “rituals”. Their contemporary view offered through their music makes the most experienced and faithful listener renounce to their personal definition of music. Our body and soul are stunned by the crushing, repetitive chords layered with the sweet distressing sermons preached by the charismatic lead singer, and his unique vocal tone.

Excelente texto sobre os Amenra e o último Mass V. Continua aqui na Cvlt Nation.

“Não fujam depois do concerto. Queremos conhecer-vos.”

Cláudia Andrade @ Amplifest 2012


Demos, uma vez mais, voz a Colin H. Van Eeckhout, enquanto aguardamos pela Church Of Ra. Por entre a extensa conversa, desvenda-se o que Amenra para o futuro reserva.

O PA voltou a falar com o Colin. Bela entrevista, das melhores que temos lido. Cliquem aqui.

“Sancta Víscera Tua é um espectáculo com direcção de Jonathan Uliel Saldanha, numa co-produção com o coro comunitário de Guimarães Outra Voz, Catarina Miranda e o colectivo SOOPA, desenvolvido propositadamente para o espaço da Igreja de Santa Clara, na Sé. Terá uma única apresentação no Porto, HOJE, a partir das 21h30.”

Francisco Queimadela


No total, cerca de 120 artistas vão dar voz e movimento a uma peça sonora e cénica inspirada na “Via-sacra”. “Sancta Viscera Tua”, que tomará conta de todos os recantos do templo portuense, convida o espectador a escutar e circular livremente pela igreja.

O projecto nasceu de um convite do Padre João Carrapa, pároco da Sé, e tem por objectivo apresentar uma aproximação pouco convencional à voz. A entrada é gratuita, mas será condicionada à lotação da igreja – 200 espectadores.

O músico e compositor Jonathan Saldanha explicou, por email, ao P24 que ”Sancta Viscera Tua” trabalha sobre a arquitectura sonora da Igreja de Santa Clara através de “uma construção vibracional de som, gesto, luz e voz”.

Continua no Porto24. Até logo!

Um mês para Mantar


I have welcomed 2014 into my existence with this album, and the year is already sounding truly righteous thanks to Mantar. This is an album engorged with fat riffs and drumming that sounds like a mammoth stampede, and it’s just what you need to get your next 12 months started the right way, the heavy way. ‘Death By Burning’ is a tremendous marriage of styles and feel, and it will crush you in it’s path. And believe me, that is something to be welcomed.

Quando se gosta de algo… Continua aqui.

Tema e Variações: Música do Povo

Com os dois últimos textos despachámos as questões ligadas à música “erudita” e à “world music”. Algures entre essas duas situa-se a música “do povo”. Aqui há mais problemas terminológicos porque, ao passo que música clássica, erudita e literata são sinónimos, música popular e folclórica são coisas diferentes.

O folclore é um termo bastante familiar para nós, até porque a variação na música de região para região em Portugal é bastante impressionante, tendo em conta a pequena dimensão do país. Etimologicamente, “folk lore” quer simplesmente dizer “conhecimento do povo”. São aquelas coisas que todos reconhecemos e não fazemos ideia de onde vêm. Quando ouviram pela primeira vez a “Atirei o pau ao gato”? Quem é o autor? Em que ano foi escrita? Se não se sabe, também não interessa. A ideia de que a música folclórica é criada em grupo, improvisando, é já um bocado datada, e actualmente é mais comum pensar-se que uma música teve um autor específico e foi sofrendo alterações ao longo dos tempos, visto que se transmitia quase exclusivamente pela tradição oral. O facto de não ser escrita tinha ainda uma segunda consequência: se uma música não fosse popular, se ninguém a ouvisse, simplesmente desaparecia. O revivalismo do século passado complicou as coisas. Seria correcto dizer que a música do Bob Dylan é inspirada pela música folclórica, mas dizer que Dylan é folk faz muito pouco sentido, se pensarmos no assunto. Música tradicional nova é uma contradição de termos. A possibilidade actual de gravação desta música retira-lhe a característica fundamental de ir sendo modificada ao longo dos anos por lapsos de memória ou improvisações deliberadas. E a comercialização da música “folk”, bem como a valorização do cantor, são traços típicos da música popular.

Para sermos justos, a “música popular” está relativamente perto da música folclórica: a própria palavra “popular” indica que é música do agrado do povo. Ainda assim, há uma maior valorização da inovação e dos intérpretes, embora tenha de existir um balanço, pois a acessibilidade é crucial. A estranheza inicial do rock foi-se dissipando ao longo destes 50 anos, e hoje em dia bandas como Beatles, Pink Floyd, Muse, Audioslave ou Nirvana, globalmente falando, podiam inserir-se perfeitamente no rótulo de música pop. Mas, do mesmo modo que distinguimos música folclórica e música folk, também nos dá jeito separar música popular (indicador de sucesso) e música pop (género musical). Tanto uma como a outra buscam o sucesso e o lucro, e isso sim, é uma característica bastante própria da música do Ocidente nos últimos cem anos.

É óbvio que existem excepções: o yodel dos Alpes Suíços é tão singular na Europa que desde cedo surgiram músicos semiprofissionais; existem tribos africanas que designam músicos específicos para determinadas ocasiões, e isso era ainda mais importante entre os Aztecas, que raramente usavam música fora de cerimónias religiosas, nas quais qualquer nota errada era severamente punida. Mas em pequenas culturas que usam a música apenas como entretenimento (e elas existem), a noção de músicos profissionais faz muito pouco sentido. E ainda menos sentido fará a nossa divisão entre espectadores e intérpretes, uma divisão que se materializa através das grades que nos separam do palco em muitos concertos.

Apesar de alguns autores atribuírem esse fenómeno a comportamentos de manada ou à “cultura de massas”, os problemas fundamentais residem no capitalismo enquanto determinante de quem tem ou não acesso aos bens ou aos eventos, e ao culto da personalidade que nos leva a valorizar mais o criador do que a criação. O sociólogo Walter Benjamin, por exemplo, era invulgarmente optimista, vendo o cinema como um meio no qual o processo de criação do produto final era perfeitamente visível e reprodutível, desmistificando a arte e aproximando-a do público. Se tivesse sobrevivido à 2ª Guerra Mundial, o autor judeu teria certamente apreciado o cinema neorrealista italiano, com tantos actores não-profissionais.

Hoje em dia é extremamente fácil aprender a fazer música, principalmente quando se tem uma ligação à internet e, mesmo que não se tenha meios para adquirir instrumentos, há inúmeros programas que permitem criar música electrónica. A ideia de que um álbum é uma construção única e completamente original vai sendo ultrapassada (apesar de não ser o maior fã da banda, gosto imenso do modo como os Darkthrone desconstruíram recentemente os seus lançamentos, com comentários por cima das músicas) e a barreira que separa os artistas dos “meros mortais” é constantemente deitada abaixo – se alguém esteve num Amplifest ou num Milhões de Festa e não falou com nenhum músico, foi simplesmente porque não quis. Claro que podemos continuar a admirar certas criações – a arte quase nos obriga a isso – mas a música deve ser vista como uma actividade aberta a todos.

O problema é que esta é uma área perigosa: valorizar a criação e distribuição de música por amor (portanto, o amadorismo) pode enfraquecer o sector da cultura, já por si tão debilitado. A Unesco tenta contornar o assunto do lucro nas artes, defendendo que são actividades que conferem uma voz aos mais desfavorecidos, que desenvolvem uma herança cultural que promove a coesão de grupos, e que dão uma nova vida às cidades, criando assim um cenário propício a mais criação e inovação. Podemos concordar com tudo, e defender que as competências criativas que o contacto com a arte pode desenvolver é um traço tão útil em cientistas e economistas como em músicos, e nada disto nos impede de criar um balanço entre a arte gratuita e o artista profissional: só porque um disco está a 0€ no Bandcamp, nada nos impede de pagar por ele, e não estamos a ser estúpidos. Ser o consumidor a definir quanto está disposto a pagar por algo parece uma utopia, e as economias de oferta são alvo de grandes debates. Mas se estamos sempre a dizer que a arte não tem preço, podemos começar a pensar mais a sério nessa questão.

Uma semana para Church of Ra no Porto


Das datas por que ansiamos, há algumas que sabemos à partida que se avizinham como marcantes. Dia 17 de Abril, o dia em que o colectivo artístico belga Church of Ra se estreia em Portugal para uma noite performativa de quatro concertos, encabeçados pelos sinceramente sofridos, duros e intensos Amenra, vai marcar a memória de todos os presentes. Podem tomar nota.

É impossível negar que a devastadora aparição dos Amenra na edição de 2012 do Amplifest deixou marcas: há até quem jure que o desespero lancinante dos gritos de Colin Van Eeckhout ainda ecoa, qual alma penada, pelas paredes do Hard Club; e que se perscrutarmos atentamente o chão da sala, encontraremos pequenos pedaços de cinza ainda fumegante. Mas, acima de tudo, da negra tempestade causada pelos belgas continua viva a memória em todos os afortunados que a presenciaram.

Ao regresso dos Amenra ao Porto, na próxima semana, juntam-se os Oathbreaker, que no ano transacto deixaram a sua marca bem cunhada nos géneros core com “Eros|Anteros”, um épico do êxtase encarcerado numa dualidade oceânica, da acalmia à tempestade. Ainda na mesma noite, os duríssimos Hessian e uns espaciais e imersivos Treha Sektori.

O colectivo Church of Ra, envolto em negrume, expressa-se em linguagens diversas, como a escultura, a pintura, o vídeo e, de forma mais visível, a música. Dia 17, apresentam-nos a sua tese sobre o sofrimento humano e o amor que sentimos pelo próximo na sala 2 do Hard Club, no Porto. Os bilhetes, à venda na AMPLISTORE e nas lojas Hard Club, Louie Louie, Piranha e Matéria Prima, custam 18 euros.

Mais palavras para quê?

Amprogramação

Começamos o ano com dose dupla do folk negro do Sr. Scott-Neurosis-Kelly; seguiu-se o eterno maestro dos Swans Michael Gira em noite esgotada no Porto; no dia seguinte Wooden Shjips, Monkey3 e 10000 Russos também no Porto; agenciamos a lenda viva Mike Watt e companhia em Lisboa e Control Unit no Porto; e o nosso último evento foram os dois pesos pesados do free-jazz Ken Vandermark e Paal Nilssen-Love. Seguem-se:
17.04 AMENRA + Oathbreaker + Hessian + Treha Sektori – Hard Club, Porto
06.05 Celeste + Revok + Comity – Hard Club, Porto
10.05 Mantar – Armazém do Chá, Porto
29.05 OvO – El Perro de la Parte de Atrás del Coche, Madrid
30.05 OvO – Musicbox, Lisboa
31.05 OvO – Serralves em Festa, Porto
01.06 OvO – Area Master, Vigo
06.06 HHY & The Macumbas – Primavera Sound, Porto
15.06 Caspian + Lehnen + Katabatic – Hard Club, Porto
16.06 Caspian + Lehnen + Katabatic – RCA Club, Lisboa
22.06 Kylesa + Lazer/Wulf + Portugal Vs EUA – Hard Club, Porto
12.09 Process of Guilt – Reverence Festival, Valada
10.10 Anathema – Paradise Garage, Lisboa
11.10 Anathema – Hard Club, Porto

Entretanto, vem aí tour de Katabatic, uma tour duma banda internacional que ainda não podemos revelar, nomes incríveis para o Milhões de Festa e as novidades do melhor AMPLIFEST de sempre estão quase aí também. Estão connosco?

Caspian + Lehnen + Katabatic

João Machado

CASPIAN
LEHNEN
KATABATIC

15/06/2014, DOMINGO
HARD CLUB, PORTO
PORTAS 20H00
INÍCIO 20H30

Bilhetes (14€) à venda na AMPLISTORE, Hard Club, Louie Louie, Piranha e Matéria Prima.

16/06/2014, SEGUNDA
RCA CLUB, LISBOA
PORTAS 20H00
INÍCIO 20H30

Bilhetes (14€) à venda na AMPLISTORE, Carbono Lisboa, Carbono Amadora, Glamorama e Flur.

Evento no Facebook (Porto) · Evento no Facebook (Lisboa)


Nascidos em pleno baby-boom do pós-rock na década passada, os Caspian cedo garantiram um lugar na mesa dos filhos pródigos do género, e o tempo encarregou-se de confirmar esse estatuto. Fugindo ao facilitismo e à fórmula mais óbvia do género, os temas dos Caspian são peças de ourivesaria fina onde cada detalhe, cada clique no delay, cada crescendo e cada clímax são elementos de uma elegante estrutura onde nada é supérfluo e nada é ao acaso. Depois de um sólido caminho feito com discos como The Four Trees e Tertia, os Caspian atingiram a sua voz própria e o degrau mais alto – até agora – da sua discografia com o mais recente Waking Season, disco que apresentarão no Porto e em Lisboa a 15 e 16 de Junho, respectivamente.
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Trazidos pela mão dos Caspian durante esta digressão europeia, os austríacos Lehnen vêm demonstrar o seu melódico e incomum cruzamento entre o pós-rock, o shoegaze e o pós-hardcore. Com uma maturidade estabelecida por uma carreira que já cobre oito anos de existência, os Lehnen aproveitarão a estadia para mostrarem o seu disco I See Your Shadow perante o público português.
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A abrir a noite mas a resgatar à memória o excelente concerto para uma sala cheia durante o Amplifest 2013, teremos o pós-rock imprevisível e indutor de headbanging dos KATABATIC. Os lisboetas, no topo da sua forma, apresentarão o muito aguardado EP Weighs Like a Nightmare on The Brains of The Living, havendo ainda tempo e lugar para as já clássicas malhas do disco de estreia Heavy Water.
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“Mantar, a new duo from Hamburg, Germany”


Mantar, a new duo from Hamburg, Germany, take plenty from the groovier aspects of 90s metal, but they don’t quite feel like the bands they emulate. This lies not in the riffs, but how they’re presented. They don’t have the street vibe of Helmet or Prong, they’re not interested in a Melvinsian sense of humor, and they’re not imbued with Matt Pike’s stoned majesty. Moreover, they sure as hell know they’re not from Louisiana. Mantar have a seriousness about them, as evidenced on their debut album Death By Burning, cloaking their sounds in a darkness that make them downright vicious. They’re a band who can claim the Jesus Lizard as an influence and still hang with the rosters of staunch metalists like Iron Bonehead or Hells Headbangers.

Continua na Pitchfork.

Anathema

ANATHEMA + Guests

10/10/2014, SEXTA
PARADISE GARAGE, LISBOA

11/10/2014, SÁBADO
HARD CLUB, PORTO

Os bilhetes para o concerto custam 22€ e estão à venda nos seguintes locais: AMPLISTORE, Ticketline (1820 – www.ticketline.sapo.pt), Fnac, Worten, El Corte Inglés, C. C. Dolce Vita, Casino Lisboa, Galerias Campo Pequeno, Ag. Abreu, C. C. MMM, C. C. Mundicenter, Carbono (Lisboa), Carbono (Amadora), Glam-o-Rama (Lisboa), Unkind (www.unkind.pt), Break Point (Vigo) e nos locais.

Site · Facebook · Eventos no Facebook · Aquela noite em acústico no Passos Manuel

Distant Satellites é o culminar de tudo aquilo para que temos vindo a trabalhar ao longo no nosso percurso musical. O disco contém todos os elementos que fazem a música desta banda… Há beleza, há intensidade, há drama, há quietude e há dimensões musicais extra a que, no passado, só tínhamos tentado chegar. Tudo foi construído a partir da química entre o Daniel, o John e o Vincent – já para não falar na encantadora voz de Lee Douglas. Produzido e misturado novamente por Christer-André Cederberg (que já tinha gravado «Weather Systems» e «Universal») e com algumas canções a serem misturadas pelo inimitável Steven Wilson, este é um lançamento muito especial e único para o grupo. Os Anathema esperam que os fãs sintam a música e retirem tanto prazer da sua audição como nós próprios retirámos enquanto a estávamos a criar.
ANATHEMA, 28.03.2104

Ao décimo longa-duração e mais de duas décadas depois de se terem juntado, os ANATHEMA mostram que o seu génio não pára de crescer e que a criatividade continua a fluir como se ainda tivessem algo a provar a alguém. «Distant Satellites», o sucessor do muito aplaudido «Weather Systems», tem edição agendada para o dia 9 de Junho através da Kscope e é outra boa prova disso, pegando nas belíssimas paisagens sonoras que dominaram os registos anteriores e aproximando-as ainda um pouco mais da perfeição, com o projeto liderado pelos irmãos Cavanagh a dar um passo derradeiro no estremar dos laços emocionais que se podem estabelecer entre quem cria e ouve música.

É precisamente de temas carregados de uma emoção palpável a cada nota ou linha vocal, que agarram o ouvinte de uma forma intensa – e a que ninguém consegue ficar indiferente – que se vai fazer o regresso do quinteto a Portugal, para uma data-dupla com passagem pelo Paradise Garage (em Lisboa) e pelo Hard Club (no Porto), nos dias 10 e 11 de Outubro, respetivamente. Dois concertos a não perder, que – tendo em conta a relação muito próxima que os músicos foram desenvolvendo com o público nacional ao longo dos anos e a reação entusiasta com a qual são brindados sempre que pisam solo nacional – prometem ser memoráveis.

Ao lado dos Paradise Lost e My Dying Bride, os ANATHEMA completaram a tríade do doom britânico no início dos anos 90, ajudaram a estabelecer os parâmetros para a fusão death/doom e cimentaram-na, por direito próprio, como um subgénero da música extrema. Abraçando o imaginário gótico e cinzentão tipicamente britânico, entre lápides cobertas de musgo, os músicos de Liverpool assinaram, no espaço de quatro anos, algumas das pedras basilares do estilo. «Crestfallen», «Serenades», «Pentecost III» e «The Silent Enigma» estabeleceram a sonoridade, influenciaram toda uma geração e viram o nome da banda inscrito no panteão da música lenta e pesada. Desde «Eternity», em 1995, talvez inspirados pela imensidão de grupos que tentavam recriar o que tinham feito nos primeiros discos, optaram por uma abordagem mais melódica e atmosférica, que deu origem a outros tantos títulos um pouco diferentes mas igualmente incontornáveis e marcantes – «Alternative 4», «Judgement», «A Fine Day To Exit», «A Natural Disaster», «We’re Here Because We’re Here» e «Weather Systems».

Co-Organização: Prime Artists

+ info: amplificasom@gmail.com
Press: press@amplificasom.com

A quinta missa ainda roda por aqui

AMENRA - MASS V


The band’s focus on the inherent and desolate beauty that’s found in life imbued with a painful ambience not often found within their doomed sludge style…in the clashing of tender and serene passages with intense screams and walls of noise that AMENRA touch upon the actuality of life. It will hurt and terrify, but there can be salvation.
9/10 METAL HAMMER

A visceral, physical entity: the emotions they convey are raw, simply and universal.
IRON FIST

The dynamics of Mass V are simply staggering.
ROCK A ROLLA

An elephantine beast of a record, whose greyness of hue is matched by its thunderous assault…Mass V portrays a band with grim gravitas that’s all their own.
TERRORIZER

They are a visceral, physical entity: the emotions they convey are raw, simple and universal and once they hit that stage, they WILL make you feel their pain.
IRON FIST

Mesmerising.
PROG

On Mass V to say they’ve surpassed themselves is an understatement. Thanks in no small part to the anguished squalls of Colin Van Eekhout’s vocals there is a truly uncomfortable and palpable sense of fear and distress, like being forced into the ominous blackness that adorns the album’s cover.
THE QUIETUS

The final few minutes of this incredible record consist of a repetitious riff, one root note with a couple of high notes, that plays forever, fading out and literally leaving you stunned. Devoid of all hope and completely apocalyptic, it’s a testament to Amenra’s incredible skill that a record of such slow paced, utter desolation not only goes by so quickly but has you reaching for the play button again the instant it ends.
TIGHT TO THE NAIL

Like being bludgeoned with a blunt object.
ZERO TOLERANCE

“O primeiro domingo de verão traz os sulistas ao norte de Portugal.”

Geoff_Johnson


“A amizade entre a malta de Savannah e o porreiro pessoal da Amplificasom não é d’hoje – estender-se-á, muito provavelmente, desde os tempos em que os Kylesa oscilaram o Porto-Rio. Quatro anos volvidos, e pelo meio outra passagem, a banda assenta backline e malas de porão na Invicta, num Junho que já é verão, tão condizente com o seu tropical “Ultraviolet”.”

A notícia do Ponto Alternativo continua aqui.

Kylesa + Lazer/Wulf

Adapted by André Coelho

KYLESA
LAZER/WULF
22/06/2014, DOMINGO (data única em Portugal)
HARD CLUB, PORTO

PORTAS 20:00
LAZER/WULF 20:30 – 21:15
KYLESA 21:30 – 22:45
PORTUGAL-USA 23:00 – 00:45 (transmissão do jogo do Mundial no ecrã da Sala 2)

Bilhetes (16€) à venda na AMPLISTORE, last2ticket, Hard Club e nas lojas Louie Louie, Piranha e Matéria Prima.

Evento no Facebook


Os Kylesa têm um caminho muito próprio na história recente dos heavy-riffers, mas um trajecto digno de recordação de qualquer das formas: com as origens bem enraizadas no sludge à Nova Orleães, a banda de Savannah tem-se desviado para uma sonoridade inconfundível, desde a adição de teclados ao acrescento um segundo kit de bateria às suas composições, de que o último “Ultraviolet” é o melhor exemplo. A troca do musculado pelo psicológico, numa abordagem alucinada e mais detalhada de cada canção, faz do registo mais recente uma obra de uma sensualidade dopada e sublime — algo que nunca diríamos de mais nenhuma banda do género.
A 22 de Junho, os norte-americanos regressam ao Porto (numa terceira vinda a Portugal, a terceira pelas mãos da Amplificasom) tanto com “Ultraviolet” na calha como um bom número de clássicos para levar a sala 2 do Hard Club a curvar a espinha veemente.

Site · Facebook · A primeira vez em Portugal ou quando o barco vinha abaixo · A segunda vez no Porto


A primeira parte fica nas mãos dos Lazer/Wulf, trio essencialmente instrumental cujo registo de estreia The Beast of Left and Right sairá já em Maio próximo com o selo Retro Futurist, editora que é propriedade dos próprios Kylesa. Os contornos mais cerebrais e progressivos, mas sempre enérgicos, da música dos Lazer/Wulf farão o contraponto perfeito com o desvario que será o concerto da banda principal da noite.

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A after-party dos concertos, chamemos-lhe assim, será assegurada por um momento de partilha entre as bandas e a audiência (elas americanas e nós portugueses), para se ver o jogo Portugal x EUA no enorme ecrã da Sala 2. É a terceira e última jornada, vai ser bonito.

Co-Organização: Amplificasom + Lovers & Lollypops

Press: press@amplificasom.com
+ info: amplificasom@gmail.com

P.A./HARD LOVE

Servindo como desculpa genuína ou não, a austeridade teve um impacto no contexto financeiro deste tipo de instituições obrigando-as a cortes sobretudo na programação musical. Puxo pela cabeça e acho que a última vez que me sentei naquelas confortáveis cadeiras do auditório de Serralves foi numa peça de dança contemporânea de Jérôme Bel. Nem foi a música que me motivou, portanto.

Até ontem. Concertos como o da última noite só podem acontecer neste tipo de espaços. E devem! Com regularidade. Marina Rosenfeld, Okkyung Lee e Warrior Queen no mesmo palco?! Foda-se :)

Dei por mim completamente absorvido por aquele cruzamento de mundos, por aquela “colisão estilística”, por todas aquelas composições tão originais e inesperadas que emanam uma beleza desconfortável tão… confortável. Há algum tempo que não me divertia tanto num concerto, focado no mesmo sem a mente a dispersar para outros lados (os da Amplificasom não contam, temos sempre a mente a disparar responsabilidades).

A Okkyung Lee, tímida e discreta entre explorações do seu violoncelo completamente fundamentais neste trio; a Marina, com grande estilo e descontracção no meio dos giradiscos e maquinaria, como cérebro do que se passava em palco; e a Warrior Queen, reputada MC jamaicana (estão a ver The Bug e afins?) a partir tudo de forma explícita e quente, a ter orgasmos (literalmente) em palco e a provocar-nos saudavelmente.

Se perderam a estreia europeia (!), não percam o disco com o mesmo nome.

Grande noite! Volta, Serralves.

Tema e Variações: Pela(s) Música(s) do Mundo

Combinando o texto da semana passada acerca de música clássica (ou literata) com a (relativamente) recente notícia do falecimento do Paco de Lucia, tentarei esta semana dar continuidade à problematização de algumas expressões que nos habituámos a usar, por vezes sem as perceber totalmente. Para tal, o texto do Manuel A. Fernandes sobre world music pode servir como mote.

Devo começar por dizer que concordo com algumas críticas à world music que podemos encontrar nesse texto e naquele do David Byrne aí partilhado – simplificação da questão, eurocentrismo, interesses comerciais, etc. No entanto, sinto que há um problema fundamental nessa abordagem (em particular no texto do Byrne) – o da satisfação com o termo “world music” por si só. Parece-me, aliás, intelectualmente desonesto limitar a discussão a essa expressão para depois criticar que “world music” é simplista e agrupa num só termo a música das mais variadas culturas – não podemos dizer exactamente o mesmo de outros géneros? Pela mesma lógica, concluir que os Beatles e os Melvins são bem diferentes torna obsoleto o termo “rock”, porque também agrupa tudo num só género. E esqueçamos a expressão “música ocidental”, porque é insuficiente para explicar as diferenças entre Bach e Britney Spears. Ou, num campo mais próximo da world music, para quê usar a expressão jazz fusão? Fusão de quê, exactamente? Quais as semelhanças – e diferenças – entre Paco de Lucia e Miles Davis?

Byrne critica não só a comercialização da world music como tal, mas também a relutância de bastantes pessoas em ouvir algo que não seja pop ocidental. Ou seja, o público-alvo do seu texto parece ser o americano comum que, mais do que qualquer ouvinte culto, precisa exactamente da categorização “world music” para chegar às sonoridades que Byrne diz que devem ser ouvidas para se expandir horizontes. E criticar a audição despreocupada dessa “world music” é esperar que alguém que apenas se interessa pela música como entretenimento se preocupe com as ramificações culturais e artísticas de culturas estudadas por antropólogos em vez de sociólogos porque a sociologia se prova insuficiente. É pedir bastante do nosso “ouvinte típico”.

Mesmo que haja de facto a tentativa de separação entre “nós” e “eles” (os criadores não-ocidentais da “world music”), nem isso me parece muito negativo – a criatividade é um traço fundamental da espécie humana e a variabilidade nas culturas musicais acaba por ser um reflexo disso mesmo. Acrescente-se a isso que, apesar de a presença de música ser uma característica comum a todas as culturas conhecidas na história da humanidade (a não ser quando é banida por motivos religiosos, por exemplo), há, de facto, algumas diferenças enormes entre algumas culturas e a nossa, em parte influenciadas pelo nosso desenvolvimento da notação musical. Foi o nosso sistema de escrita que permitiu um grande desenvolvimento da harmonia, a ponto de se tornar perfeitamente viável e comum compor música para orquestras de mais de 50 músicos. Numa simplificação exagerada consciente, poderíamos dizer que a Europa é o continente da harmonia, a Ásia, com a sitar ou o shamisen, o continente da melodia, e África, com os tambores polirritmados, o continente do ritmo. Ficávamos assim com uma separação toda bonita das três características-base da música. Mas, como disse, é reducionista e fortemente contestável.

Focando-nos um pouco mais na notação musical, deparamo-nos com um problema curioso: decidimos dividir cada oitava em 12 tons, mas há imensas culturas que não fazem o mesmo. Concluiu-se, no século XIX, que podíamos escrever essa música não com 12 tons, mas com uma divisão da oitava em 1200 partes. Tornou-se assim possível identificar uma nota como sendo, digamos, um “Dó + 25 cents”. Um problema resolvido, mas mantém-se outro: como escrever a música com notas que sobem ou descem a uma determinada velocidade? Com gráficos ilustrativos, fica muito mais fácil escrever algo como o famoso haka dos Maori da Nova Zelândia. O surgimento de meios de gravação ajudou-nos imenso a compreender esses tipos de música, pois agora não precisamos de a ler: basta-nos ouvir.

A preservação da música através de gravações ocorreu bastante cedo, com compositores como Béla Bartók a dedicarem-se a isso desde, pelo menos, 1910. E, apesar de ainda não existir então a expressão world music, já havia preocupações relativas ao melhor modo de comercializar as gravações. O mercado americano acabaria por se provar bastante lucrativo – numa nação formada por emigrantes, inúmeras pessoas agradeceram a oportunidade de mergulhar na nostalgia causada pela música dos seus antepassados. Claro que mesmo essas raízes não tinham a “pureza” que tantas vezes se associa à world music – o ukelele havaiano, por exemplo, surgiu como uma mistura entre o cavaquinho e o ukeke, instrumento local banido pelos missionários portugueses. Nas Filipinas e na América Central, os missionários espanhóis fizeram bastantes mais estragos e, uns séculos mais tarde, a Austrália sofreu o mesmo tipo de invasão destrutiva por parte dos britânicos. Em comparação com isso, não vejo grande mal em preservar músicas de outras culturas sob um rótulo tão frágil como world music.

Claro que questiono também alguns aspecto desta moda da world music que surgiu nos anos 80 e continuou nas décadas seguintes. O primeiro Grammy para Melhor Álbum de World Music foi recebido em 1992 por um americano (Mickey Hart, baterista dos Grateful Dead); nos 10 primeiros anos, 5 dos prémios foram recebidos por brasileiros; em 2004 decidiram dividir o Grammy entre melhor álbum de world music tradicional e melhor álbum de world music contemporânea, mas em 2012 abandonaram a ideia. De qualquer forma, em 2000, ano em que Caetano Veloso ganhou, os restantes nomeados eram Cesária Évora, Ali Farka Touré, Salif Keita, e Afro Celt Sound System; em 2002, quando ganhou Ravi Shankar, Cesária Évora e Afro Celt Sound System estavam outra vez nomeados, bem como Gilberto Gil e John McLaughlin. Como é que se pode comparar música tão distinta?

Para terminar, lembram-se da Sweet Lullaby, do álbum World Mix dos Deep Forest? Dizem-nos que o objectivo era partilhar uma melodia que lhes agradou, mas primeiro tiveram de lhe acrescentar um ritmo banal em estúdio e um coro de crianças a cantar de forma tipicamente ocidental, retirando alguma identidade à voz principal e fazendo-a soar desafinada em comparação. Uma coisa que habitualmente não nos dizem nas compilações de música relaxante é que a melodia original é uma melodia de luto, com a função de confortar crianças que perderam o pai. E sim, o duo francês ganhou um Grammy com o álbum seguinte.

Welcomed Wherever I Go

Glenn Jones, em 2012, na antiga Sonoscopia. Bela noite...

Era tão bom que voltasses, Glenn… Novo tema clicando aqui.
I have a new 12″ 45 (Thrill Jockey) coming out for Record Store Day. Copies just arrived and I’m very VERY pleased with how it came out! I believe it sold out in pre-order, but I got a bunch this time. I hope you’ll support your favorite record store, but if you can’t find, get in touch.

SANCTA VISCERA TUA

12 de Abril 2014, 21h30 Igreja de Santa Clara, Porto
16 de Abril 2014, 21h30 Igreja de São Francisco, Guimarães

A tua víscera sagrada, é um convergir de pessoas, arquitecturas e intenções que em conjunto, procedem a uma reencenação do invisível.

Peça sonora e cénica construída a partir dos arquétipos presentes na estrutura de uma Via Sacra – literalmente percurso sacro – que na sua génese propõe a re-encenação do sacrifício; numa celebração que é também vestígio dos mais primordiais ritos de transformação e mediação entre materiais e sentidos.

Este percurso que é uma estrutura organizacional e temporal, oscila entre estímulos que ocorrem em planos distintos, abordando o sacrifício enquanto elemento visceral que acompanha trans-culturalmente a mediação colectiva humana entre a matéria e a anima. Uma construção vibracional de som, gesto, luz e voz.

A voz enquanto organismo primordial constituído por uma extrema visceralidade, estabelece-se enquanto fluxo sonoro que transforma pela matéria o sentido, filtrando pelas suas cavidades internas ruídos, vibrações e ímpetos. A voz rude, como potência de evocação e intenção, surge como emissor de sinal que intercepta a arquitectura da Igreja, pela ressonância das suas reentrâncias, reconectando as dimensões mais telúricas do canto colectivo, com o impacto na matéria.

SANCTA VISCERA TUA surge no seguimento de uma série de composições para massa coral e espaço, desenvolvidas desde 2010 (TEUFEL*RADARMASS/Berlim, KHŌROS ANIMA/CEC Guimarães 2012 e TUNNEL VISION/Tzadik) e que juntam um trabalho específico sobre os espaços ressonantes, pré-linguagem, autopoiesis, e os territorios intangiveis estudados pela Física contemporânea, na organização e elaboração de peças sonoras em movimento.

Do outro lado do Atlântico


The records came in this weekend. Thank you so much guys for making this happen. I will give the In Solo a couple more listens, but I enjoyed it the first run through. The 5 poems album grabbed me right away. What a MONSTER!!!! Really like the arrangements, and the recording quality is fantastic on both of them. Thank you again for sending them, and I will be sure to keep in touch.

Patrick Russel, Chicago

Amplificasom agencia: OvO em Portugal

30/05 @ Musicbox, Lisboa
31/05 @ Serralves em Festa, Porto

A definição do lugar que os OvO possam coabitar com outros artistas perde-se na singularidade, tanto sonora como performativa e visual, da dupla italiana. Versados numa ética de Do It Yourself que transcende as limitações do punk, cruzam a linguagem dos géneros pesados com uma desenvoltura visceral e ambiental que não deixa de apelar a um tribalismo distante da cacofonia ocidental. Prova disso será “Abisso”, mais recente disco de Stefania Pedretti e Bruno Dorella, lançado no desfecho do ano passado e contando com colaborações de nomes como Carla Bozulich (Evangelista) e Alan Dubin (Khanate). Os OvO, sempre de pé em palco, encaram a audiência com a mesma assertividade que o seu nome — os olhos de OvO nos nossos olhos, ao vivo, no estúdio ou na relação que estabelecem nos recantos da nossa mente.

Site · Facebook · A banda da semana do Paulo André (Loud!)

Entrar na Sala 2 e não ficar minimamente embasbacado com os OvO é impossível.
Ponto Alternativo

A dupla italiana OvO leva o experimentalismo a um ponto sem retorno. Um percussionista que lembra um lutador de wrestling com certos trejeitos nipónicos e uma guitarrista/vocalista que personifica o cruzamento genético entre uma amazona e um ser alienígena, jorram uma amálgama musical que não poderá ser traduzida em rótulos fáceis e delineados. Se houve quem ficasse mal impressionado com a performance, também houve quem descobrisse em OvO uma nova forma de vista. E de música.
Rua de Baixo

Nada diz melhor “fora do baralho” como os OvO. Num misto de Carnaval de Veneza com exibição de wrestling mexicano, a dupla Stefania Pedretti e Bruno Dorella dá um dos concertos mais revigorantes de sábado. Dorella, de pé, desanca dois tambores e um prato, como um urso enlouquecido, enquanto Stefania se entrega a devaneios líricos entre o avantgarde e o j-rock, tudo ateado por linhas distorcidas ora de baixo ora de guitarra. Nota mental: tentar tocar baixo com um esquadro a servir de palheta.
Festivais de Verão

Corremos para a sala ao lado porque não queremos perder o início de OvO, que podiam facilmente levar para casa o prémio de concerto mais bizarro do festival, o que, atenção, não é necessariamente mau. A dupla apresenta-se em palco, ele com pinta de carrasco, ela em trajes reduzidos e máscara de malha. O que se passou a seguir não foi para qualquer um, foi pura esquizofrenia.
Arte-Factos

Conseguiram marcar o dia, novamente, pela capacidade de magnetizar a atenção, pela força daquilo que estava em cima do palco – e não apenas pelo facto de terem um baterista corpulento que tocava de pé.
Bodyspace

Mantar

ANOIK

MANTAR
10/05/2014, SÁBADO
ARMAZÉM DO CHÁ, PORTO
PORTAS 22H00
INÍCIO 22H30

Bilhetes (6€) à venda na AMPLISTORE, Louie Louie, Piranha e Matéria Prima.

Por muito que o crescimento da Amplificasom nos orgulhe e nos proporcione encher salas com alguns dos nossos heróis de sempre, os concertos mais pequenos, alguns de bandas que acabámos de descobrir, estão-nos no sangue e fazem parte da nossa identidade. É com certeza que afirmamos que sempre os faremos. Wolves in the Throne Room, Icos, Altar of Plagues, Bossk, Eagle Twin e tantos outros – alguns deles cresceram até se afirmarem como nomes maiores dos respectivos géneros, outros já não existem, mas em comum todos têm o facto de nos terem acompanhado algures no nosso caminho, numa noite em que estivemos, algumas dezenas de almas, numa qualquer cave ou porão de barco em comunhão com a sua música.
Será assim com os Mantar, no dia 10 de Maio no Armazém do Chá. Com o disco de estreia Death by Burning lançado recentemente pela cada vez mais essencial Svart Records, os Mantar são apenas um duo, mas chegarão para nos assaltar à força dos riffs e nos balançar os corpos com o groove da escola Melvins, numa aglomeração de peso stoner e doom levemente tingida pela rispidez do black metal.

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