Apichatpong Weerasethakul

Dados os acontecimentos recentes na Tailândia, um post recente a ligar cinema a lugares e conflitos distantes, e após visionar uma das suas mais recentes curtas-metragens, lembrei-me de escrever um pouco sobre este realizador tailandês cuja curta obra é certamente uma das mais interessantes do cinema contemporâneo. Com apenas 4 filmes de ficção de longa duração em nome próprio (o 5º estreia agora em Cannes), filmados à margem da indústria cinematográfica tailandesa e com vários problemas com as autoridades da censura, Weerasethakul, conseguiu criar um espaço completamente único no panorama do cinema actual.

Tematicamente é inventivo, focando temas de sexualidade, crenças e mitos, memória, tradição e imaginário onírico, entre outros ingredientes à mistura. A sensação que fica ao ver os filmes dele é que existe algo por detrás do (ou imanente ao) filme, algo que só é percepcionado há medida que o filme se vai desenrolando (e perdura muito tempo após, mas só como uma sensação) e nem sempre, penso que propositadamente, inteligível. As narrativas deixam de ser importantes (muitas das linhas da narrativa e relações entre as personagens iniciam-se mas não chegam a desenrolar-se ou sequer a ter conclusão, pelo menos fisicamente perante os nossos olhos) e abre-se o espaço (físico e temporal) para absorver tudo o resto, havendo mesmo uma sobreposição vertical, tal camadas, de ideias e sentimentos. Como diria, Henri Langlois, vai para lá da quarta dimensão. De destacar também a forma como filma os espaços, os jogos interior-exterior e a relação das personagens com estes, incluindo uma ligação especial à natureza. Utiliza frequentemente não-actores e joga com alguns ambientes e condições (incluindo da construção fílmica) tal como são, criando por vezes um misto de documentário e ficção (veja-se a primeira longa metragem “Misterious Object at Noon” (2000).

Bem, não vale a pena estar a escrever muitas palavras pois é difícil de descrever de forma fidedigna os filmes de Weerasethakul – ou seja, é vê-los! Em DVD, em Portugal, existe apenas “Febre Tropical” (prémio do júri em Cannes 2004). Em Inglaterra encontram-se os DVDs de “Blissfully Yours (prémio Un Certain Regard, Cannes 2002) e “Syndromes and a Century” (2006). De destacar também, de entre as dezenas de curtas dele, a contribuição para “O Estado do Mundo” (2007), um dos melhores da série de mini-filmes encomendados pela Fundação Calouste Gulbenkian da qual faziam também parte filmes de Pedro Costa, Chantal Akerman entre outros – já passou na tv2 e no Curtas de Vila de Conde.

Fica o trailer de “Syndromes and a Century”:

E o trailer de “Tropical Malady”: