Lou Reed e o álbum maldito

É um álbum maldito da história do rock (e se formos rigorosos, de toda a história da música). Lou Reed, uns anos após o fim dos Velvet Underground, em 1975, grava essa infâmia e embuste (para uns) ou obra genial e premonitória (para outros tantos): “Metal Machine Music”. Num aspecto todos estão de acordo: trata-se de um registo radical, concebido e gravado sem concessões, feito à base de feedback de guitarra e de manipulação de ruído branco. Reed diz que gravou o disco completamente pedrado. Acreditamos. Já foi considerado o pior álbum de rock de sempre; e já foi incluído na lista dos discos mais inovadores de sempre. Em que ficamos?

Na verdade, o disco vale sobretudo como testemunho conceptual, mais do que estritamente musical. Deve tanto ao rock de guitarras dos Velvet como aos princípios estéticos e teóricos de La Monte Young, de John Cage ou dos concretistas Pierre Schaeffer e Pierre Henry. Deve também à teoria dos “intonarumori”, as célebres máquinas de produzir ruído industrial do futurista italiano Luigi Russolo. E é um disco que influenciou artista tão diversos como Sonic youth, Throbbing Gristle, Merzbow e todos os subgéneros do noise, do industrial e do electro-acústico. Ouvi-lo não será o mesmo que ouvir Robert Wyatt ao entardecer enquanto se bebe um martini (que raio de associação!). Ao longo destes 30 e tal anos, não acredito que alguém, alguma vez, tenha ouvido “Metal Machine Music” do princípio ao fim sem ter tido lesões cerebrais irreversíveis. Mas quem sabe, tratar-se-ia de uma experiência limite no teste à capacidade auditiva humana. Não eram os Einstürzende Neubeutan que diziam que “é preciso ouvir com dor”?

Comentários

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  1. O Cardoso

    Acredites ou não, ainda hoje estava a ouvir Robert Wyatt enquanto bebia um gin tónico (falhei o martini). E também, embora tenha o MMM, confesso que nunca o ouvi de principio ao fim…

  2. Silva

    Eu já o ouvi três vezes, a primeira das quais a volumes pouco recomendáveis (embora a questão seja sempre: o que pode ser considerado "recomendável" neste caso. 0?) Acho que os danos já lá estavam, seja como for.

    Ainda gostava de saber era se a história que ele gravou o álbum em casa, para desespero dos vizinhos, se confirmar. Muitos dariam um braço para poder ouvir o que acaba por se tornar num ícone da música, mas acho que neste caso deram os ouvidos.

  3. António Matos Silva

    também há quem diga que o álbum era uma obrigação contratual e ele o fez assim só para se poder desvincular de uma editora.

    seja como for, o que ele disse é a mais pura das verdades "só um louco é que ouviria este álbum do início ao fim".

  4. Luis

    "só um louco é que ouviria este álbum do início ao fim"

    Discordo! Só um louco diria isso….

    No entanto, apesar de ter os seus momentos sempre me pareceu que este disco é um pouco sobrevalorizado – e nunca teria a atenção que tem se não tivesse sido gravado por um músico "mainstream".

  5. Carlos

    Duvido que haja muita gente a meter isto na aparelhagem e ouvir frequentemente. Não deixa de ser um album interessante de um ponto de vista estético mas não acho que proporcione uma boa experiência musical aos ouvintes.

  6. ::Andre::

    Não conheço e se o texto já era convidativo os vossos comentários também. Fiquei curioso embora confesse que o nunca meti o Reed em nenhum pedestal.

  7. Alex

    frequentemente não ouço, mas muito de vez em quando ainda vai passando! :P