Som espectral, pontos de fuga e os espaços miticos


O tópico sobre o Black Metal era inevitável não era? Digam lá, já estavam à espera.
Apesar de hoje em dia não poder afirmar que tenha um género musical preferido ou onde me enquadre a 100%, posso afirmar a importância que o Metal teve em mim na minha adolescência, em especial o Black Metal. Participei em bandas, criei zines, apoiei algumas pessoas e apesar de hoje em dia a minha participação directa neste meio já não ser tão activa, é um subgénero do metal que consumo e sigo com alguma regularidade.

Atenção para um detalhe importante: nesta minha introdução, as afirmações que fiz não estão carregadas por algum tipo de nostalgia pelos “bons velhos tempos” ou porque “hoje em dia já não é como dantes…”. Muito pelo contrário. Talvez agora, com o passar do tempo e com a distância que este coloca entre nós e as coisas que experienciamos, eu ganhei uma outra capacidade de analisar os produtos e seleccionar de acordo com os meus gostos e preferências.

Esta capacidade de olhar para trás e tentar analisar os conteúdos formais e conceptuais de um estilo com o qual sempre tive uma relação muito pouco objectiva e analítica, fez-me constatar que sempre dei primazia ao Black Metal com uma tendência mais primitiva. E aqui introduzo mais uma nota importante: a definição de primitivismo que aqui refiro é uma que se relaciona com uma noção de tempo e espaço ancestral, de passado, ainda que mítico e imensamente indefinido. Nada tem a ver com gravações falhadas, execução técnica má e produtos de baixa qualidade para esconder a evidente falta de talento dos músicos.

O que refiro acima, vai de contra a alguns preconceitos típicos aos críticos e a alguns defensores demasiado cegos do género: o Black Metal é acima de tudo um género cujo sucesso está dependente do seu som, da sua produção. Deste modo, mais que focar em composições complexas e desafiantes do ponto de vista técnico, importa apostar em valores intrínsecos ao próprio som, tais como textura, reverberação, tonalidade, tempo, etc…
Vejam um exemplo da musica criada por Wolves In The Throne Room ou Paysage D’Hiver ou recuando mais ainda, o “Filosofem” de Burzum ou o “Transilvanian Hunger”. Mais do que boas composições, o que temos é um som que vagueia num espaço indefinido e infinito, uma neblina sonora.
O padrão rítmico, a base, tem uma cadência repetitiva, básica, primordial. Actua como uma guia indutora de transe, como o tambor de um xamã, marcando as espirais sonoras.

Mas agora largo a bomba: não venho aqui de Wolves In The Throne Room ou de nada de novo feito pelo Varg Vikernes. Não que tenha algo contra as bandas acima citadas, mas na verdade, WITTR por uma razão ou por outra nunca estiveram muito tempo no meu leitor de cds e o que ouvi do “Belus” não me agradou por aí além (excepto a “Glemselens Elv”)

Chegou às minhas mãos à bem pouco tempo aquele que penso ser o único lançamento dos desconhecidos Arizmenda, intitulado “Within the Vacuum of Infinity”.
Na minha modesta opinião, é um óptimo apanhado de toda esta vertente mais espectral e primitiva do Black Metal. É um esforço ambiental, espacial, mas não é um espaço estreito e de vistas curtas, mas sim de um panorama gigante, de uma imensidão celestial onde a neblina encobre o infinito que se estende por diante.
Riff após riff, o som modela-se e a cada mudança é um clímax. O facto de tudo assentar num trabalho de percussão minimal, de mera marcação e guia, acentua todas as mudanças por mais ténues que sejam, tal como uma pincelada a branco numa tela preta.
E é uma comparação que faz todo o sentido. É um trabalho que facilmente invoca imagens e situações pictóricas. Imaginem-se perante a bruma num qualquer quadro de Friedrich. O desconhecido estende-se à vossa frente, maior que qualquer coisa que possam imaginar. O tempo é infinito, tudo converge para um ponto de fuga cuja terminação jamais alcançarão e só por esse prisma estamos imediatamente relacionados com uma noção de tempo que nos ultrapassa enquanto mortais, logo é um tempo e um espaço mítico. Este grau de indefinição e de desconhecido é imensamente mais interessante que o palpável e facilmente perceptível.

Em suma, se neste momento pudesse escolher um perfeito exemplo para vos mostrar o que seria o melhor Black Metal, sem dúvida que escolheria este trabalho.

Rabisco de André Coelho