Pauleatoriedades: Anarcho-punk

ANARCHY

Virtude dos confrontos da semana passada entre polícias, manifestantes e jornalistas bonitas, urge que o tema desta semana seja a rebelião e a revolução. E que género de música consegue ter um maior espírito revolucionário, tirando o rock frito dos Rallizes Dénudés, do que o punk anarca sujo? O que se segue são três escolhas óbvias para a banda-sonora de uma tarde de arremesso de cocktails molotov em direcção ao parlamento. Claro que poderão argumentar que este género de pensamento, bem como o próprio anarquismo, é uma brincadeira para crianças e que dentro do próprio punk é muito mais revolucionário ser-se nazi, mas reparem: 1) os Skrewdriver eram uma merda e 2) NAZI PUNKS, FUCK OFF (© Jello Biafra). Se quiserem ser punks e conservadores podem sempre ouvir os Misfits da era Michale Graves. Mas porque raio haveriam de se sujeitar a essa tortura de qualquer das formas? Continuando…

Ah, os Aus-Rotten. Acho que já disse aqui que foram uma das melhores bandas punk dos últimos vinte anos. E repito o que disse. Eram pesados, eram sujos, eram anarcas, e faziam com que cada título das suas canções fosse um slogan instantâneo: “The System Works For Them”, “No Justice, No Peace”, “They Ignore Peaceful Protest”, “Fuck Nazi Sympathy”… Acabaram em 2001, mas dava jeito que voltassem neste tempo de crise. Claro que isso dava-lhes cabo do cred, mas esta expressão é hoje tão utilizada de forma estúpida que acaba por já não fazer sentido. Por isso façam-nos um favor a todos e ponham a credibilidade arrumada no mesmo sítio onde puseram, há onze anos, as bandeiras pretas.

E depois há os Crass. Estes, por exemplo, voltaram após terem acabado em 1984 – se bem que de forma muito reduzida, e por forma reduzida quero dizer que foi apenas o Steve Ignorant que tocou canções deles a solo – e ninguém levou a mal. Tirando o Penny Rimbaud. Que acabou por chegar à conclusão de que a “credibilidade” é uma palermice e voltou a tocar com o Steve no ano passado, na despedida definitiva dos Crass. Que têm igualmente um dos melhores logos de sempre. Quem me dera ter um patch dos Crass para o coser na minha mala, mas disseram-me uma vez que um patch é uma coisa para palermas e eu acreditei. Sou um Mário-vai-com-os-outros. Demasiado menino e educado para ser rebelde. Mas ouço Crass. Isso há-de me salvar no dia da Revolução Final, quando punks de arma em riste vierem separar o trigo dos fachos.

Embora tanto os Aus-Rotten como os Crass tenham frases fantásticas para escrever nas t-shirts brancas compradas na feira ou em estandartes que se devem erguer bem alto nas manifs para aparecermos na televisão e termos os nossos cinco segundos de fama, nenhuma descreverá tão bem o estado de coisas como o título do primeiro longa-duração dos Flux of Pink Indians: The Fucking Cunts Treat Us Like Pricks. Os FoPI eram bastante amigos dos Crass – alguns até se juntaram ao Steve Ignorant nos concertos revival de 2007 – e isso nota-se igualmente no som: primitivo, sim, inteligente, mais. Completam o triunvirato das bandas anarcho-punk que mais deveriam ser lembradas, e sim, eu gosto muito dos Dead Kennedys. Citei-os ali em cima, pá. Mas toda a gente ouve DK, já é demasiado mainstream.

(Após ter escrito este artigo recebi uma chamada do Jello Biafra a dizer-me que continuo expulso do punk por gostar do disco do Jay-Z e do Kanye e que não são estas falinhas mansas que me readmitirão. Gaita :( )

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