Tema e Variações: Discossões

Há muitas pessoas que só compram vinil e que insistem que esse é o melhor formato. O interessante sobre esta discussão é que deixou de ser apenas vinil vs. CD, mas também vinil vs. digital, não tendo isto afectado muito os argumentos habituais dos apologistas do vinil:

  • “O vinil soa melhor”: há quem chegue a esta conclusão com base nos discos de vinil que ouve na aparelhagem dos pais, comparando-os com os CDs que ouve no computador (álbuns diferentes, ainda por cima). Por outro lado, ainda não encontrei nenhum estudo onde as pessoas conseguissem consistentemente distinguir o som dos dois formatos usando a mesma aparelhagem. Além do mais, se eu não consigo distinguir consistentemente um mp3 a 320kbps de um CD, quase de certeza que também não vou achar o vinil melhor do que o CD a não ser, porventura, devido a uma reacção emocional. E isso leva-nos ao segundo ponto.
  • “É mais nostálgico”: algumas pessoas criticam este argumento por ser “elitista”, “hipster”, etc., e não se basear em componentes musicais, embora elas mesmas ouçam música para terem reacções emocionais (ou seja, também elas procuram sentir alguma coisa, apenas não essa nostalgia). O único aspecto no qual este formato físico é elitista é na medida em que é preciso ser capaz de pagar por ele e ter espaço para o guardar. Mas criticar alguém por ter posses que nós próprios não podemos ter é só mesquinho. Se há quem retire prazer genuíno de olhar para um vinil por ter a pairar no subconsciente toda a história deste formato, melhor para eles – estão a receber mais por aquilo que pagam.
  • “É mais bonito e a experiência estética é maior”: ok, a capa é maior, mas os livretos dos CDs contêm, frequentemente, mais informação (histórias, letras de músicas, ilustrações, etc). Há, porém, algumas capas que merecem uma superfície maior – ocorre-me o último dos Ephel Duath, por exemplo.
  • “O vinil perdura, mas os CDs vão ser substituídos, tal como estes substituíram as cassetes”: as cassetes eram práticas e sobreviveram muito tempo ao lado dos CDs em parte por serem ouvidas nos carros, mas a qualidade de som era, sem dúvida, pior; os minidiscs continuaram populares no Japão até este século mas globalmente falando não se conseguiram afirmar a tempo e os CDs tinham custos de produção inferiores; se os CDs estivessem para ser substituídos, já o teriam sido – o SACD tem uma qualidade de som em teoria bem superior mas, novamente, não há provas de que uma pessoa com ouvidos treinados o consiga distinguir consistentemente de um CD normal. No entanto, pode ter mais de 3h de música, tal como o DVD-A. Com o digital, desde mp3 até AAC e FLAC, não há grandes motivos para o surgimento de formatos físicos novos. Os avanços no som limitar-se-ão, em princípio, aos estúdios.

O vinil tem ainda bastantes desvantagens: danifica-se mais facilmente (seja devido a pó ou problemas causados por uma agulha defeituosa), não pode tocar tanta música contínua, é menos prático em termos de tamanho, e é mais caro.

Ainda assim, tenho alguns vinis e sinto-me cada vez mais tentado a começar a comprar certos álbuns nesse formato. Em termos de comprar música, prefiro sempre formatos físicos porque gosto de encomendar, gosto da espera, da chegada do álbum, de folhear o livreto e das características únicas que nem sempre se encontram da mesma forma na internet (as letras alucinadas no God is Good dos Om; o desdobrável no Rated R dos QOTSA; a contextualização histórica no L’Autrichienne dos Jucifer; as ilustrações no Suspended Animation dos Fantomas). Mas que vantagens tem o vinil em relação ao CD? Em primeiro lugar, a experiência estética pode realmente ser maior com um vinil, em alguns casos, e uma prateleira de vinis tem também o seu interesse. Depois, podemos usar o factor psicológico a nosso favor: ficarmos mais contentes por comprar um vinil do que um CD torna-nos mais predispostos a apreciar o que ouvimos, e vai soar-nos melhor (apenas temos de reconhecer que é como um placebo e não um fenómeno físico relacionado com as ondas sonoras). Motiva-nos a ouvir cada lado do início ao fim, em vez de saltar músicas. É possível que dure mais do que o CD, simplesmente porque este último é um formato muito mais recente e não sabemos como ocorrerá o seu desgaste ao longo de décadas. E, se algum dia estivermos a passar fome, algumas edições especiais ainda valem umas centenas de euros depois de esgotarem.

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