Um latão pelo Homem!


Quando o disco “Soul Cleansing” de Sektor 304 foi editado, na Malignant Records pediram-me para escrever um texto de apresentação da banda. Depressa comecei a escrever sobre os inícios do Industrial, sobre a Inglaterra no final dos anos 70 e a inevitável comparação com o Punk, movimentos que se desenvolvia paralelamente nessa altura.

Tanto o Punk como o Industrial nasceram da crescente vontade de abanar o sistema, de quebrar com as regras, de chocar. Se pensarmos em personagens como Génesis P. Orridge e o colocarmos ao lado de Johnny Rotten ou Sid Vicious, o que vemos é a mesma atitude desconcertante e desafiadora dos valores culturais do nosso meio e uma vontade incansável de confrontação. A diferença reside a um outro nível: apesar da música ser o médium comum, o Industrial revela-se como um corte com esta. Em suma, o Industrial levou a sua linguagem própria um pouco mais além daquilo que o Punk fez (afinal, it’s only rock ‘n’ roll, certo?) e apropriou-se daquilo que no fundo, são os resíduos da sociedade ocidental: o lixo, a sucata, os dejectos, o entulho, os objectos considerados inúteis (tal como era considerada esta geração aos olhos das anteriores). Apesar de algum paralelismo conceptual, temos assumidamente uma divergência formal entre ambos os géneros. Com este passo, o Industrial acaba por voltar a sociedade contra ela própria.

É deste contexto que surgem nas docas decadentes do sul de Londres no final de 1981 os Test Department. Reza a lenda que eram jovens desempregados numa Inglaterra conservadora. Filhos do “no future” e que começaram a desenvolver as suas ideias musicais utilizando aquilo que os rodeava: desperdícios. A sua própria musica era reflexo das suas existências. Eram marginais que lutavam contra um sistema que os marginalizara. As suas armas eram aquilo que esse mesmo sistema lhes dava.

Assim sendo, Test Dept depressa modelaram o seu som como uma espécie de hino de combate, uma autêntica massa de percussão frenética e ruído industrial controlado aliado a loops e pistas sonoras montadas ao bom estilo do “cut & paste”, elevando a sua musica a uma dimensão quase épica com a utilização de instrumentos de sopro que reforçam ainda mais o conceito de luta e força inerente à musica. Mais que Neubauten, Test Dept surge como um grupo de acção, como uma força colectiva de intervenção. A percussão é uma arma de mobilização e o ruído é um veículo de confrontação.
Desengane-se aquele que considerar esta banda como mais uma do industrial militante de uma extrema-direita romantizada ou adepta de temáticas e tácticas de choque por via sexual ou de violência. Test Dept é fruto de um contexto particular e invoca a luta do homem comum contra um sistema opressor.

Como nos vários posts que tenho feito até agora, vou sugerir um trabalho em particular. Neste caso, terei mesmo que ir para o primeiro álbum de estúdio de Test Dept, o acutilante “Beating the Retreat”. Muitos de vocês já devem ter ouvido a faixa mais caótica deste trabalho, a “Total State Machine” sem saber que a estavam a ouvir. Lembram-se do filme “Os Filhos do Homem” com o Clive Owen e o Michael Caine? Lembram-se do alarme da casa do Michael Caine? Pois é… esse “ruído” é na verdade esta música, só para terem ideia da coisa. E que maravilhosa situação. Uma música de Test Dept a avisar os nossos heróis que lutam pelo futuro da Humanidade que os vilões sedentos de poder estão a chegar para lhes usurparem a liberdade.

Infelizmente, a partir dos anos 90, começamos a detectar uma mudança na sonoridade da banda, colocando-a cada vez mais dentro do campo da musica de dança, o que a meu ver (e não tendo nada contra musica de dança) acabou por retirar muita do interesse que tinha por eles. Ouçam sobretudo os primeiros discos e cassetes ao vivo da década de 80, como a “Ecstasy under duress” ou a “Atonal & Hamburg Live”, por exemplo!

E da próxima vez que alguém me perguntar se o que eu faço em Sektor 304 é “tipo Stomp”, acho que lhe espeto este disco em algum sítio melindroso!!!

Borrões controlados por André Coelho